sábado, 16 de março de 2013

Protocolo dos Sonhos


por Wilson Teles T. Jr
Foi um susto quando a professora Gisele nos avisou que trabalharíamos com sonhos nesse módulo. Claro, pois é algo estranho a alguém que tem sonhos sóbrios e tantos pesadelos. Sempre foi mais fácil pra eu sonhar acordado, quero dizer, andando na rua, sentado no ônibus ou em plena sala de aula – vivo a divagar, não sei ao certo se há diferença entre sonhar e imaginar, mas acho que está valendo.
Ouço muito sobre sonhos alheios e às vezes até mesmo me aproprio de alguns sonhos bons e tento resolver os pesadelos, mesmo não tendo capacidade de lidar com os meus. E tratar disso na sala, seria no mínimo complicado. Todos falando de seus sonhos; suas bocas falavam, seus corpos mostravam e a caneta os registrava pra sempre sobre a folha de papel.
Como representar algo que não era meu, quando não tenho sonhos fantasiosos, e sim sonhos cruelmente reais e monótonos (sim, é foda controlar seus sonhos, depois de um tempo perde toda a graça)?
Costa (2009) fala da transformação de textos literários em espetáculos, uma prática bem comum nos dias de hoje e da importância da leitura e da escrita para a criação dramática. Novamente me aflige uma preocupação como escrever, ou melhor, ler aquilo que não me pertence?
Ter um banco de dados é um meio que Costa (2009) nos dá, para entendermos o que se passa numa criação do tipo (texto transformado em espetáculo). Dito isso, essa prática torna-se fundamental para se produzir um texto, então, com o que conhecia dos meus companheiros de sala pude compreender melhor o que seus sonhos significavam e assim conseguir adaptar os meus pensamentos aos seus sonhos. Me inseri no contexto.
Tudo parece de fato textual, textualizado ou textualizável, no sentido de que o universo das escritas multiplicadas ou das escritas sobre escritas, em um processo que parece infinito (...) (Costa, 2009, pg 48).
Em umas das aulas a professora pediu que nos movêssemos com uma musica, procurando formas de demonstrar nossos sonhos com movimentos, e percebemos mais uma fala de Costa (2009) que aponta a dimensão da dramaturgia teatral como algo muito amplo, devido sua interação com outras áreas.  Um grupo foi formado: alguns davam vida aos seus sonhos enquanto de fora um que fora escolhido como diretor, no grupo do qual participei era a Tiara, nos observaria e montaria uma cena com os movimentos que mais gostasse num momento de colagem e edição de imagem feita com nossos corpos. Depois de editado, foram nos dadas falas para serem ditas com os nossos movimentos, a minha caiu muito bem: Na minha fantasia nada dói, nada afeta, nada corrompe.
Outros processos foram feitos, mas esse que foi o mais simples foi também o mais relevante pra mim. Com ele percebi a importância de contextualizar e o quanto isso ajuda na hora da criação.

(Reticências) por Tiago Andrade.


Doze meses que voaram... E a cada dia que passei ao lado da turma pude ver a importância que cada um representa para o outro. Em meio a choros, risos, gritos, sussurros, perdas, ganhos... Conseguimos sobreviver fortes e devemos prosseguir fortes para que no futuro sejamos... Espera ai! O futuro é hoje!
Sonhei que caminhava e chegava próximo de um prédio grande e nele havia muitas crianças...

O que sair, saiu!
O que vier, veio!
Por nada freio
E vou seguindo...
Mesmo sem destino
Haverá um sentido.

Já fui pastor, esperei na fila pra ser sonhado, depois mestre dos sonhos e distribuía sonhos para serem sonhados
Fui produtor, ator, sonoplasta, iluminador e até aluno
Acordei desesperado, estou atrasado...
Toma -limpa-liga-acelera-monta-agradece-atenção-ultrapassa-chega
Qual é o roteiro?
NÃO EXISTE ROTEIRO!

Abra a Mão não tenha medo
Um presente eu vou lhe dar
É um sonho de brinquedo
Que pode se realizar

Pra sonhar não basta só dormir
Também pode ser acordado
Pode ser um sonho que te faça rir
Ou um que te deixe atordoado

Pra sonhar não tem idade
E nem classe social
Pode ser um sonho de verdade
Ou um sonho artificial

Pegue logo o travesseiro e encoste sua cabeça
Reze pro papai do céu, por favor, não se esqueça
O que vai sonhar... É uma surpresa!

Quem é Apote?
- sou eu! É você... Somos todos nós.
O que significa? É isso que quero saber!
-como diria Zé Celso: o que interessa é aquilo que você não entende.


SONHEI SONHAR  NOVOS SONHOS

Vinicius Viana Ferreira



Entre uma escrita e outra resolvi mudar certas coisas, serei eu o ultimo a escrever, a protocolar o que vivemos, o que resta, não são os melhores sonhos mais os que tivemos juntos.
Sonhei um sonho sonhado, tão belo encantado que ate então não conhecia, eram as mais diversas criaturas, estranhas em sua formosura, educadas que ali brotavam, tinha uma professora, que ensinava e era contadora, e a todos com suas historias encantava, com certas atividades faziam com que aquele povo as terças, a cada dia mereçam aprender sua pratica de criação... Tortura em uma expulsão dos seres contidos, saiam todos doloridos, num parto de dramas coloridos, ali novos sentidos as artes começam a ter.
Tudo muito bem protocolado para chegar ao alto, serei eu Icaro ou não ser? Só não podemos deixar nossas asas caírem, somos cavaleiro errante, alucinado por gigantes, mais o que é a loucura: não sei! É sonhar acordado, e de olhos vendados, pensar no real e perder o juízo, serei eu o único maluco? É descobrir no Teatro a maravilha do que é real. A mestra pede a todos contos e poesias que tirem os seus sonhos das malas, que guardem os que estão com as crianças, que expulsem os chatos e vamos todos pegar carona em um trem de asas, vejam esta chegando a criação, já é hora da expressão em forma de magia, grupos misteriosamente se preparam pegam um pouco dos sonhos sonhados para brincar com o seu formato, descobrir que em escritura contemporânea o artista contribui, o movimento corporal, as imagens e vivencias do mesmo são usadas juntas ao texto, vi Zé Celso banquetear, o Vertigem se superar colaborando para casar e procriar, adentrando a um fundo  e devorador espetáculo dos segredos de nossas vidas o meu sonho eu já sabia foi ali que eu disse: Eu queria ser Ator e com faunos. Feiticeiros, palhaços, índias e bailarinas minha historia começou: 
Sonho de Catirina

Em um ensaio com a mestra o que pensamos foi mostrado, o que era errado retirado, mais nada também mudou, com musicas que a todos tocou, a professora ensinou que o corpo se ler e ele se escreve em cena, em uma calada maneira, de forma muito sutil, o riso se derramou e emocionado aqui estou pela obra acabada, alguém este texto encontrará, mais não se esqueça de quem encontrar  contar que comemoramos um ano de um sonho sonhado junto, porque um sonho que se sonha só, é apenas um sonho só.




Teatro contemporâneo e seus encantos

 A aula começou com os depoimentos da turma sobre sonhos, um assunto tão gostoso de se conversar, todos nós contamos alguns de nossos sonhos e o que eles significam para nós. Lendas, premonições, lembranças, desejos, estes foram alguns conceitos que a turma deu para os sonhos. Ao final deste debate cada aluno fez um pequeno texto relatando seus sonhos e em seguida lemos em voz alta para turma.   Depois trabalhamos com os sonhos de Eduardo Galeano, um caçador de histórias que seleciona algumas historias que ouve  vive e transforma em livros, tivemos como referencia O livro dos abraços. Galeano diz que : " A memória viva nasce a cada dia."  abaixo algumas informações deste escritor:

Eduardo Galeano nasceu em Montevidéu, Uruguai, em 1940. Em sua cidade natal foi chefe do semanário Marcha e diretor do jornal Época. Em Buenos Aires, Argentina, fundou e dirigiu a revista Crisis. Esteve exilado na Argentina e Espanha desde 1973; no início de 1985 regressou ao Uruguai. Desde então reside em Montevidéu. E autor de vários livros, traduzidos em mais de vinte línguas, e de uma profusa obra jornalística. Recebeu o prêmio Casa das Américas em 1975 e 1978 e o prêmio Aloa dos editores dinamarqueses em 1993. A trilogia Memória do Fogo foi premiada pelo Ministério da Cultura do Uruguai e recebeu o American Book Award (Washington University, USA) em 1989. Em abril de 1999, foi distinguido com o Prêmio a Liberdade da Cultura, outorgado, em sua edição inaugural, pela Fundação Lannan, dos Estados Unidos.

A professora Gisele entregou para cada aluno um sonho de Galeano, começamos a nos movimentar pela sala e ao sinal dela, parávamos e contávamos este sonho para a pessoa que estava a nossa frente, no inicio era apenas uma narração do sonho nao precisava expressar emoção, logo em seguida, A Gisele leu em voz alta o sonho de Helena: Naquela noite, os sonhos faziam fila, querendo ser sonhados, mas Helena não podia sonhá-los todos, não dava. Um dos sonhos, desconhecido, se recomendava: — Sonhe-me, vale a pena. Sonhe-me, que vai gostar. Faziam fila alguns sonhos novos, jamais sonhados, mas Helena reconhecia o sonho bobo, que sempre voltava, esse chato, e outros sonhos cômicos ou sombrios que eram velhos conhecidos de suas noites voadoras. A turma formou uma fila e como se fossem os sonhos de Helena ficaram chamando a atenção sua atencao,  ao sinal da Gisele a pessoa que ela tocasse teria que fazer de tudo para convencer Helena a escolhe-lo. Depois deste momento, sentamos e individualmente cada aluno representou seu sonho em uma breve encenação.



 Na aula seguinte assistimos trechos do espetáculo O livro de Jó do grupo Teatro da Vertigem, este grupo  iniciou seus trabalhos em 1991 com experimentos baseados na Mecânica Clássica aplicados ao movimento expressivo do ator buscou desenvolver a ocupação de espaços não convencionais, aprofundou-se nas possibilidades cênicas do espaço e na exploração e utilização de objetos e materiais do local, que influenciaram diretamente todas as outras áreas de criação e no processo colaborativo como modo de criação do grupo. Seus principais espetáculos e intervenções cênicas foram:


  • O Paraíso Perdido - primeiro espetáculo da companhia 
  • O Livro de Jó, 
  • Apocalipse 1,11, 
  • História de Amor (últimos capítulos) de Jean-Luc Lagarce. 
  • BR-3
  •  Kastelo, 
  •  Bom Retiro.  
  • A peça Cartas de Despejo, 
  • A ópera Orfeu e Eurídice,  
  • A ópera Dido e Enéias, de Henry Purcell, 
  • Intervenção cênica Mauismo, no bairro da Bela Vista, local de sua sede e, também, convidou jovens diretores para a realização do projeto Leituras Encenadas.
  • Intervenção cênica A Última Palavra é a Penúltima a partir do texto O Esgotado, de Gilles Deleuze. 

Finalizamos o modulo com apresentações  cênicas criadas por nós e  inspiradas no livro de Galeano,  dos depoimentos dos sonhos  e a idéia proposta pela coordenadora do grupo de pesquisa Corpos Informáticos que existe desde 1992  e  professora da Universidade de Brasília, Maria Beatriz de Medeiros, conhecida como Bia Medeiros, a exposição de Kombis coloridas  plantadas como se fossem árvores. 





REFERÊNCIAS:

GALEANO, Eduardo. O livro dos abraços; tradução de Eric Nepomuceno. 9 ed. Porto Alegre: L&PM, 2002.

Disponível em: http://www.teatrodavertigem.com.br/site/index.php. acessado em 10/03/2013.



sexta-feira, 15 de março de 2013

Alice no país dos sonhos por Lígia da Cruz

Alice! Aceita e deposita
No templo da memória,
Lá onde a Infância entrança sonhos,
Com mãos gentis a história:
Guirlanda murcha que um romeiro
Colhera ao longe, outrora.

A toca do coelho, no começo, alongava-se como um túnel, mas de repente abria-se como um poço, tão de repente que Alice não teve um segundo sequer para pensar em parar, antes de se ver caindo no que parecia ser um buraco muito fundo. Ou o poço era profundo demais, ou ela caía muito devagar.
                                                                                                                      Lewis Carrol

Durante esse tempo ela encontrou-se com inúmeras historiazinhas, recortes de vida, pedacinhos de memórias, fragmentos de lembranças embrulhados em papéis coloridos que lhes remetiam cenas do passado e do futuro que nem ao menos sabia se eram seus ou dos outros, e quem eram os outros?
Havia uma voz, impertinente que sussurrava em seu ouvido “Sonho que se sonha só...” ela se incomodava virava, estava de ponta cabeça e a voz repetia “sonho que se sonha só...”, acreditava que não fosse possível existir uma criatura tão pequenina que ela não pudesse enxergar, mas pensando sobre isso lembrou-se que nunca tinha ficado tanto tempo em queda livre e que nunca tinha visto coelhos vestidinhos de terno e óculos.
Percebeu que estaria julgando mal aquela vozinha, mas quando decidiu abrir prosa com o ser invisível ou indivisível, não obteve resposta.
Enquanto flutuava no ar encontrou uma janela vermelha com cortinas brancas que lembravam a casa da vovó, o cheiro de bolo saindo do forno. Mas lá dentro, não via nada além de uma Patinha vestida de avental com uma cara muito desagradável, através da Janela Alice lhe perguntou:
- O que você faz aí dentro?
A Pata, muito irritada respondeu:
- Estou irritada oras! Vai me dizer que não sabe o que aconteceu com sonhos de Helena?
- Helena? - Imaginou que fosse outra Pata, ou quem sabe uma Gansa ou Cisne. Para sua surpresa a Pata respondeu:
- É! A Andorinha Helena!
- Andorinha?
-Qual o seu problema garota? Você está bem? Pelo menos sabe quem é você mesma?
Alice pensou que sabia quem era, era Alice oras! Morava na rua das Hortas 77, mesma rua de um senhor distinto de origem italiana chamado Pazzin. Isso era o que ela era? Talvez este fosse seu endereço, afinal quem era Alice? Seus pensamentos foram interrompidos com os lamentos da Pata que contava a história da tal andorinha Helena: 


Pensou então que gostaria de ajudá-la, no entanto, a Pata Claribel disse que precisava descansar para depois correr atrás dos sonhos de Helena. Então Alice desceu da janela vermelha, pensando que poderia encontrar Helena e dizer para que não se chateasse com a amiga, e que sonhos vão e vem, não nos custando nada emprestá-los aos outros de vez em quando.
Como encontraria Helena? Já que era um pássaro devia estar sempre sob as nuvens do céu, concentrou-se para bolar um plano enquanto esperava que sua queda fosse concluída.Pensou em balões coloridos, poderia reunir uma porção deles para encontrar a Andorinha, mas para isso seria necessário muitos, muitos balões, eles deveriam ser realmente fortes e o mais colorido possível para chamar a atenção, uma espécie de sinalizador. Fez um desenho para reunir os materiais:

Com o desenho terminado, encontrou-se com um senhor de pele negra vestido com uma roupa vermelha muito engraçada, ele gostava de fazer rimas e sorria com muita facilidade ao mesmo tempo parecia estar investigando, como um perito, por um momento Alice pensou que ele pudesse ser um policial disfarçado. Como não devia nada para a Lei ficou tranquila, mas logo lembrou-se que dia desses sonhara que estava roubando um brigadeiro da padaria de D. Flor, mas achava que ele não fosse capaz de descobrir isso. Subitamente ele tomou o desenho que ela tinha nas mãos:
-Ei isso é meu!
-O que significa isso?
-É uma lista!O senhor não está vendo?
-Lista? Que espécie de lista?Até parece um sonho!
-Não senhor é uma lista de compras!
-Compras? Porque é que vai as compras? Porque é que não dorme pequena? Lá você pode ter tudo que você quiser...
-Não isso não é verdade, nunca sonho com aquilo que eu preciso.
-Isso é que não é verdade. Você sonha exatamente o que precisa.
-Eu não precisava de um macaco amarelo pulando na minha cama na noite passada e nem de um monstro dentro do meu guarda-roupas...
-Você deve sonhar...e não ter, pesadelos...
-Mas então o que o senhor me sugere?
-Venha comigo, durma e venha comigo.
-Mas eu só preciso de balões.
-Então vou te levar para uma festa de aniversário.
Alice sempre soube por sua mãe que não deveria conversar com estranhos, e muito menos acompanha-los, mas como já havia quebrado a regra com a Pata Claribel, achou que se uma mesma regra fosse quebrada no mesmo dia valeria por uma só vez. Além do mais, adorava festas de aniversário.
-Tudo bem senhor, acho que posso ir com o senhor.
-Claro que pode garotinha, venha...
Com seu cajado apontou-o para parede e assim acendeu uma luz, na sua frente surgiu uma porta.
-Primeiro as crianças.
-Obrigada Senhor!
Achou-o muito educado, estava acostumada a não ouvir gentilezas, porque era uma criança e não tinha estatura suficiente para ser enxergada pelos adultos.
Atravessando a porta, Alice encontrou duas outras figuras que pareciam mãe e filha. Não as classificava como gente, nem como animal, a mais velha estava muito ocupada, enquanto a mais nova chorava sem parar, a outra não percebia, rodeada de balões. Alice ficou se perguntado se aquilo realmente era uma festa, ou se pelo menos deveria ser, ficou sem graça de pedir os balcões da pequena, pois confusa não sabia se aquele era o começo ou o fim da comemoração.
Nenhuma das duas se importava com a presença de Alice. Ela decidiu ir embora antes que sobrasse para ela.
Olhando para os lados descobriu que estava perdida e que não sabia mais para que lado ficava o poço, saiu em algo que parecia uma varanda  e lá fora via um mar vermelho como groselha, já não se surpreendia mais com as novidades, chegou a conclusão de que era muito nova e não conhecia mesmo tantas coisas assim, nunca tinha viajado muito longe, e logo ali que era tão perto de sua casa e ela nem sabia que um poço poderia ser tão fundo com tantos tipos de coisas diferentes. Enquanto contemplava a beleza do mar sorria como quando sua mãe fazia gelatina de framboesa, a cor do mar lembrava a gelatina, mas o cheiro era de peixe.
Por um instante pensou ter visto uma andorinha, mas não, seria muita sorte, ficou tentando calcular a quantidade de grãos de areia. Em meio sua conta, pensou ter visto a andorinha de novo, mas estava cansada, devia ser isso...

Resolveu procurar o senhor do cajado para leva-la para casa, e o encontrou encostado sobre um baú vermelho. O tal baú estava recheado de coisas, tantas que mal se podia fechar a tampa, havia um cadeado destrancado, devia ser um tesouro trazido pelo mar, mas ele não parecia muito interessado em retirar o ouro e as pedras preciosas de lá de dentro, vendo que ele descansava resolveu perguntar: 
- Este baú é do senhor?
- Não. Claro que não!
- É de quem?
- De todos.
- Quem são todos?
- Ora! Todos!
- Todos os piratas?
- Também...
- E tem um tesouro aí dentro?
- Vários.
- E o senhor vai leva-los?
- Eu vou levar Todos para o tesouro.
- Não está certa a frase, o senhor vai levar o Tesouro para todos, todos os piratas não é?
- Você ainda não entende...
 Apareceram então duas outras garotas, uma muito alta e a outra, lembrava-lhe uma heroína, não ficou muito feliz porque queria mesmo era encontrar Helena, e ambas não se pareciam em nada com uma andorinha, na verdade uma delas tinha um cabelo amarelo que até sugeria algo de passarinhesco.

Elas pareciam saber o que queriam ali, vinham buscar algo, ele disse que tinha, montou no seu cajado como se fosse um cavalo e com alegria gritava: “Sonhos, sonhos, quem quer sonhos?” as garotas estavam muito empolgadas, então Alice resolveu pedir um também, que sabe ela pudesse encontrar-se com Helena. Ele distribuiu um sonho para cada uma delas, o de Alice era uma pena, ficou muito feliz, agora estava perto!
Deitou-se na areia e ficou esperando, passaram horas, horas, horas, começava a pensar que já estava ali a dias...olhava o céu e segurava a pena, olhava o céu e procurava penas, olhava o céu e pensava em Helena, olhava o céu e sentia pena de Claribel, olhava o céu e sentia saudade de Helena como se já conhecesse, olhava o céu e sentia vontade de cantar e cantando lembrava de outras pessoas, outras lembranças, outros céus, penas e andorinhas:



"Para o dramaturgo encenador, é preciso destemor e intrepidez ante o colosso da biblioteca ou do canône". 
                                                                                          Josué da Costa

Diário de Bordo

  por Fernando Nascimento

Ao longo desses quatros meses de viagem pelo universo da prática de criação dramática, observou-se como se procede a criação dramática a partir de... jogo tradicional, texto, uma reportagem de jornal, uma fábula etc. Nesta última viagem, descobriremos como procedeu-se a criação dramatúrgica do experimento acadêmico Plantando Kombi[1].
Desde a Grécia, nas Grandes Dionisíacas, passando pelo esplendor humanístico do teatro renascentista até o século XIX, o texto sempre fora o protagonista da cena. Essa fase é denominada por Jean-Jacques Roubine como textocentrica. Somente a partir do século XX, alguns encenadores começam a descentralizar o texto e consequentemente o dramaturgo como função prioritária dentro do fazer teatral.  Encenadores como Stanislavski, Meyerhold, Copeau e Dublin tornaram-se pioneiros no cenário internacional por quebrarem aos poucos com essa “tradição” cênica, apesar de realizarem trabalhos textocentricos estabeleciam outra relação da cena com a literatura, nem tudo que ia para o palco era necessariamente tudo aquilo que o autor havia delimitado em sua obra. Esses encenadores foram denominados pelo termo alemão de  dramaturg[2]. (SILVEIRA, 2011).
Essas transformações no âmbito do teatro mundial refletiram nas produções e processos de montagens de espetáculos no Brasil, o processo dramatúrgico contemporâneo ganhou novas práticas de criações dramáticas. Dessa forma, partiu-se do pressuposto colocado por Costa (2009) a respeito dos novos processos dramáticos no Brasil:

[...] A atividade de ler e de processar a leitura de se apropriar dela e de manipulá-la e transformá-la, a partir de novos objetivos ou contextos, de reagir a ela em um meio outro que não o dos textos impressos me parece ser, de fato, um tópico fundamental para a compreensão não só da dimensão cênica, mas também do âmbito dramatúrgico-literário de parte considerável do teatro contemporâneo. (COSTA, 2009, p. 33-33).

                  A criação do experimento acadêmico Plantando Kombi surgiu do processo da última unidade da disciplina Prática de Criação Dramática sobre o Teatro Contemporâneo e seus processos dramatúrgicos na cena contemporânea nacional. A professora dividiu a turma como costumeiramente em grupos, nosso grupo foi composto além de mim, por: Carla, Clarice, Jeane e Heidy. Após a divisão da turma em grupos, foi solicitado que fizéssemos o roteiro de uma proposta de apresentação, tendo como referências os exercícios, jogos, experimentos e discussões sobre o teatro contemporâneo ocorridos na sala de aula.

Com os grupos formados, realizamos as primeiras discussões sobre como realizaríamos o roteiro, qual temática discutiríamos no experimento e demais elementos necessários para a construção do trabalho. Esse tipo de processo dramatúrgico, onde todos participam na construção da encenação, Silveira (2011) define assim:

O processo colaborativo se caracteriza como um processo coletivizado, mas que, diferentemente da criação coletiva, retoma as funções da criação teatral, diretor, figurinista, iluminador, cenógrafo, e etc. O ator que era o centro da criação dá lugar ao grupo, à colaboração. Nada é mais importante do que o processo ou o espetáculo. Todos integrantes do grupo têm voz ativa na construção do texto, porém há um dramaturgo que escreve e assina a obra final. A figura do dramaturgo é uma das mais importantes dentro do processo colaborativo. Cabe a ele a função de transformar o que é improvisado durante os ensaios em texto dramático. (SILVEIRA, 2011, p. 06).

No circuito da cena nacional, vários grupos e companhias utilizaram/utilizam esse processo dramatúrgico para a composição dos seus espetáculos, a saber: Teatro da Vertigem, LUME, Grupo XIX de Teatro, Cia Livre de Teatro, Cia do Latão, Grupo Galpão dentre outros. No experimento Plantando Kombi partiu-se dessa ideia do teatro colaborativo para a construção das cenas, por mais que não tivéssemos tido um tempo mais longo e sistemático para a realização do processo colaborativo comparado aos renomados grupos citados, realizamos mesmo que rapidamente a ideia do que seria esse tipo de processo, como pode ser observado no primeiro roteiro pensado para o trabalho:

Personagem mexendo no computador – o que ele está fazendo é projetado no fundo do palco – ele então dorme. (assistindo o vídeo da instalação das Kombis). Dentro do sonho fica de encontro com a Kombi – projetada – e se pergunta onde está e o que está fazendo ali. Começa então um diálogo com a Kombi (voz em off) falando sobre a arte e sobre a árvore. (uma voz ao fundo chama-o, é a sua mãe gritando). Ele acorda assustado com a sua mãe chamando-o, dizendo que ele está atrasado para a escola e que a Kombi está a sua espera. (PRIMEIRO ROTEIRO DO EXPERIMENTO PLATANDO KOMBIS, 2013).

Após a realização dessa primeira ideia de roteiro, realizamos outro, mas agora dividindo o experimento em; três cenas, os personagens que estariam no trabalho, quais discussões essas personagens suscitariam, além das necessidades técnicas, conforme pedido pela mestra. Resgato aqui as palavras de Silveira (2011) quando diz que depois do roteiro do processo colaborativo, “[...] a figura do dramaturgo é uma das mais importantes dentro do processo colaborativo. Cabe a ele a função de transformar o que é improvisado durante os ensaios em texto dramático”.
Foi assim baseado no processo do roteiro elaborado pelo grupo que procedi realizando a dramaturgia do experimento Plantando Kombi conforme foto 1 ilustra.

                      Foto 1: Carlinhos assistindo TV
                                                Fonte: (D´CRUZ, 2013)

Inspirado na primeira cena do roteiro do grupo, escrevi a rubrica dessa forma:

(Ouve-se uma música lenta. Acende-se a luz em Carlinhos. Este se encontra sentado olhando fixamente para a plateia, (nessa cena houve uma mudança proposta pela professora) que nessa cena simbolicamente o personagem faz analogia a um aparelho de TV. Pois ao mesmo tempo em que Carlinhos “assiste” a plateia é exibido no slide ao fundo do palco um vídeo sobre a reportagem das Kombis plantadas. Carlinhos come um sonho de valsa durante o vídeo, depois boceja e dorme. Com o término do vídeo, apaga-se a luz e rapidamente acende). (RUBRICA DO INÍCIO DA CENA, 2013).

O texto segue com o personagem Carlinhos (nome dado carinhosamente em homenagem a Carla Purcina, que não pode está no dia da apresentação) já dentro de seu sonho dialogando com a projeção[1] ao fundo do palco de uma Kombi. Os dois discutem a respeito do que é arte contemporânea, onde a Kombi rebate as indagações do garoto assim:

                 “...Olha Carlinhos, você é um menino muito teimoso. Deveria era me comtemplar, (ênfase) pois sou uma obra de arte, mas ou invés disso fica aí se perguntando se sou kombi ou árvore. Ser kombi ou ser árvore, eis a questão... Sou arte só isso. No mundo das Artes nós podemos ser o que quisermos. Você por acaso, já leu algum livro? Já viajou pela terra do nunca? Já conheceu o chapeleiro maluco?”. (Conforme foto 2).

                        Foto 2: Viajando nos pensamentos de Carlinhos
                            Fonte: (D´CRUZ, 2013)

Carlinhos percebe que na verdade não sabe de nada. Envergonhado o garoto pede ajuda a Kombi:
“Para dona Kombi Árvore que sabe tudo! Eu já entendi... Eu não conheço ninguém desses que a senhora falou aí”. (Conforme foto 3).

                Foto 3: Carlinhos

A Kombi Árvore comove-se com o menino e resolve ajudá-lo, prometendo levá-lo numa viagem inesquecível pelo mundo dos personagens encantados. Mas quando a viagem ia começando... Ouve-se um tic-tac e ao mesmo tempo a voz da mãe de Carlinhos chamando-o:

“Carlinhos? Carlinhos? Acorda meu filho! (Pausadamente) Carlinhos, acorda que a Kombi já está lhe esperando para levá-lo pro colégio”. (Conforme foto 4).

               Foto 4: Foi apenas um sonho... 
                 Fonte: (D´CRUZ, 2013)

Assim finaliza-se a viagem de Carlinhos e a minha também. Meu diário de bordo pousou, aterrissou, atracou, parou, estacionou... Aqui! Assim como eu pude viajar pela prática de criação dramática, chegou à vez de outras pessoas desfrutarem dessas aventuras... A dupla: Carlinhos e a Kombi Árvore viverão mil e outras aventuras com crianças em diversos lugares dessa ilha... Agora é esperar as cenas dos próximos capítulos!


[1] A ideia do experimento surgiu durante aula de Gisele Vasconcellos quando a mesma citou sobre uma instalação contemporânea onde Kombis foram colocadas em cima de pequenas plantas (que hoje são árvores) numa das avenidas de Brasília. A instalação é da professora Bia Medeiros, da UnB.
[2] Termo criado pelos alemães para designar a geração de encenadores formada por Max Reinhardt, Adolph Appia, Gordon Craig, Meyerhold, que reelaboravam os textos dos dramaturgos, cortando ou acrescentando, para oferecer ao espectador um espetáculo mais pessoal a cada encenador. (TEIXEIRA, 2005).
[3] O uso de recursos tecnológicos é uma das características do teatro contemporâneo, Costa (2009) diz sobre a “[...] importância da imagem técnica na elaboração cênico-dramatúrgica dos trabalhos teatrais. [...] incluo no interesse que move a discussão nos próximos parágrafos não só a tematização da edição de imagens no sentido estrito e técnico do termo, mas também aspectos mais amplos (captação, difusão, projeção etc.) associados (assim como a edição propriamente dita) à produção de imagem e à sonorização técnica como referências significantes do teatro atual, mas também como auxiliares importantes durante os processos de criação textual e cênica, e ainda, como recursos utilizados diretamente na estruturação cênico-dramatúrgica final dos espetáculos”. (COSTA, 2009).


REFERÊNCIAS

ANDRÉ, Carreira; ANDRÉ, Felipe Costa Silva.  Pensando uma dramaturgia de grupo. Revista da pesquisa, Santa Catarina, v. 3, n. 1, 2008. . Acesso em: 12 mar. 2013.
COSTA, José da. Teatro contemporâneo no Brasil: criações partilhadas e presenças diferida. Rio de Janeiro. Ed. 7 Letras, 2009.
MORENO, Newton. A máscara alegre: contribuições da cena gay para o teatro brasileiro. Revista Sala Preta, São Paulo, v. 2, n. 1, p. 310-317, 2002. Disponível em: . Acesso em: 13 jan. 2013.
SILVEIRA, Eduardo Cesar. Quando tudo pode virar texto: a influência da criação coletiva e do processo colaborativo na dramaturgia contemporânea. Revista Anagrama: Revista Científica Interdisciplinar da Graduação, São Paulo, v. 1, n. 5, 2011. Disponível em: https://docs.google.com/viewer?a=v&q=cache:q3j7jQ9myl8J:www.usp.br/anagrama/Silveira_texto.pdf. Acesso em: 12 mar. 2013.
TEIXEIRA, Ubiratan. Dicionário de teatro. 2. ed. São Luís. Ed. Instituto Geia, 2005.

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O teatro contemporâneo a partir de sonhos


por Carla Purcina

Helena sonhou que queria fechar uma mala e não conseguiu, e fazia força com as duas mãos, e apoiava os joelhos sobre a mala, e não adiantava. A mala, que não se deixava fechar, transbordava coisas e mistérios. (GALEANO, 2002)


             Sonhos... vários são. Os repetitivos, os bons, os pesadelos, os sonambulismos, os djavus, os sonhos da vida, aqueles que nos perseguem, aqueles que não conseguimos sair, aqueles que nós conversamos mesmo dormindo, aqueles que nos marcam. Quem nunca sonhou que estava no banheiro e acordou todo molhado? Quem nunca desejou ser alguém, com uma profissão, ou com algum desejo de se profissionalizar? Quem nunca dormiu num lugar e acordou em outro? Quem nunca resmungou, brigou, chorou ou gritou, dormindo? É mito ou verdade que se dormirmos de barriga cheia sonharemos mais? Superstição contar um sonho ruim só depois que tomar café para não se realizar e com a porta aberta para que ele vá embora? Sonhar com uma pessoa que já faleceu é conversar espiritualmente com ela? Várias formas, vários meios, vários jeitos. Não é possível determinar apenas um; eles levam-nos para um mundo utópico, nos retorna a realidade e completa-nos enquanto seres humanos. Conseguiríamos partir de um sonho para uma criação dramatúrgica?
                Nos dias de hoje digo que sim. A contemporaneidade não atingiu apenas a área tecnológica e a comunicação, a arte e especificamente o teatro sofreu grandes mudanças no que diríamos se tratar criação dramatúrgica. José da Costa afirma:

                   

A articulação entre leitura e escrita como procedimento de criação e de escritura é fundamental no teatro dos dias atuais, em primeiro lugar devido ao grande número de transposições para a cena de textos não produzidos originalmente para o teatro e muitas vezes nem compostos com finalidade propriamente literária. (COSTA, 2009, p. 33)

A prática de criação dramatúrgica a partir de elementos não dramáticos é o que vem florescendo no teatro contemporâneo, José Celso[i], Bob Wilson[ii], Gerald Thomas[iii], Antônio Araújo[iv], são exemplos disso. Utilizam-se ferramentas que inspiram essas novas criações como escritos literários, contos, poesias e poemas, desenhos e imagens, leituras informais, enfim escrituras que não são destinadas ao campo dramatúrgico. A nova estrutura de cena que vem sendo empregada demanda novas leituras e concepções da escrita, não contendo-se apenas em seu significado comum da fala, mas partindo para o contexto total da teatralidade.

[...] o teatro atual revela, por variados signos autorreflexivos, uma concepção de escrita que não se limita no caráter de representação fonético-alfabética da fala, nem à função referencial ou designativa da língua. A escrita como inscrição se liberta da ideia de que escrever é apenas registrar palavras ou pensamentos verbalmente ordenados, como rompe também o constrangimento ou a limitação da escrita a uma função comunicacional significacional. (COSTA, 2009, p. 72, 73)

Em sala de aula, experimentamos, a partir do tema SONHO, algumas formas de processo para uma criação dramatúrgica. A turma partiu de contos, de releituras desses contos, de inclusão de sonhos pessoais, de formas como acordar de sonhos (assustado, gritando, sonambulando), de improvisações e experimentações até chegarmos, dividido em grupos, a montar um roteiro para a encenação. Finalizamos a disciplina com as apresentações dos três grupos e o que pude notar ao que demanda o teatro contemporâneo, é como tudo pode gerar uma produção cênica, desde uma história concreta até a um simples desenho na prancheta, não precisamos mais daquela estrutura de começo, meio e fim, com textos demarcados em diálogos, destinados especificamente ao teatro, a quebra da ação, do espaço e do tempo deixaram essa estrutura fragmentária e a utilização de outros textos vem sendo a principal forma em que os dramaturgos contemporâneos utilizam para a criação e a produção de seus espetáculos,  onde a dramaturgia parte como roteiro para a encenação, tornando-se conjugadas, como finalidade do espetáculo.



[i] Conhecido como Zé Celso, José Celso Martinez Corrêa é diretor, ator, dramaturgo e encenador brasileiro; é uma das figuras mais importantes do teatro brasileiro, líder do Teatro Oficina.
[ii] Conhecido como Bob Wilson, Robert Wilson é encenador, coreógrafo, escultor, pintor e dramaturgo norte americano; suas peças são conhecidas mundialmente como inovadoras por dar bastante ênfase na precisão das marcações, da iluminação e da sonoplastia da cena.
[iii] Conhecido com Gerald Thomas, Geraldo Thomas Sievers é diretor e dramaturgo brasileiro mas que desenvolve sua carreira internacionalmente pela Alemanha, Estados Unidos e Inglaterra.
[iv] Antônio Carlos de Araújo Silva é diretor, professor, encenador e dramaturgo brasileiro, ligado ao Teatro da Vertigem que tem como marca a encenação em lugares não convencionais.



REFERÊNCIAS:
COSTA FILHO, José da. Teatro contemporâneo no Brasil: criações partilhadas e presença diferida. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2009.

GALEANO, Eduardo. O livro dos abraços; tradução de Eric Nepomuceno. 9 ed. Porto Alegre: L&PM, 2002.