domingo, 17 de fevereiro de 2013

A crítica da Poética, por Lígia da Cruz


“Todo teatro é necessariamente político, porque políticas são todas as atividades do homem, e o teatro é uma delas.
Os que pretendem separar o teatro da política, pretendem conduzir-nos ao erro – e esta é uma atitude política.” (BOAL, 2012, p11)

Está apontado um novo caminho para todos aqueles que fazem teatro e entram em contato com a Poética do Oprimido de Boal - no momento em que o plano da sociedade contemporânea vive o desapego às suas raízes e a valorização do ser racional individual - empurrando os que estão em posição confortável a uma profunda reflexão.
Desta forma dirigi meu olhar sobre mais este método de criação dramática, compreender as técnicas e aplicações do Teatro do Oprimido vai além de sua sistematização criativa: Reconhecimento do Corpo, Tornar o corpo expressivo, O teatro como linguagem e Teatro como discurso. O contato com esta prática nos submerge na importância do nosso papel quanto artistas e seres sociais.

Ao experimentar, por exemplo, um exercício como o hipnotismo (na foto moradores do Quilombo de Jamari dos Pretos, fazem essa experiência coordenados pelo professor Luiz Pazzini), proposto por Boal na etapa de reconhecimento do corpo, com um olhar crítico e consciente da dinâmica da estrutura hierárquica do contexto social no qual estamos inseridos, agregamos valores preenchidos de legitimidade, ainda que neste momento a proposta seja:

Fazer com que o participante se torne cada vez mais consciente do seu corpo, de suas possibilidades corporais, e das deformações que o seu corpo sofre devido ao tipo de trabalho que realiza. Isto é cada: cada um deve sentir a alienação muscular imposta pelo trabalho sobre o corpo. (BOAL, 2012, p 190)

Contudo é indispensável, para aqueles que gostariam de fazer o teatro como veículo de construção de uma plateia participe da cena de maneira direta e consciente, que estejam a par dos novos moldes do macro que nos envolve:

O que acontece é que nada nele permanece o mesmo durante muito tempo, e nada dura o suficiente para ser absorvido, tornar-se familiar e transformar-se no que as pessoas ávidas de comunidade e lar procuravam e esperavam. Deixaram de existir os simpáticos mercadinhos de esquina; se conseguiram sobreviver à competição dos supermercados, seus donos, gerentes e os rostos atrás dos balcões mudam com excessiva frequência para que qualquer um deles possa substituir a permanência que já não se encontra nas ruas.(BAUMAN, 2003, p. 46)

Estamos sob uma condição de alienação onde as leis que nos regem obedecem primeiramente ao poderio econômico e nunca estamos seguramente olhando para os indivíduos, porque diante disso somos somente números e este é o nosso maior abismo. Portanto vivemos em uma condição paradoxal, ao mesmo tempo que não estamos mais em comunidade, pois somos incapazes de unir-nos afim de transformar o entorno, aquilo que detém o poder nos enxerga como uma massa única e anacrônica, que não oferece nenhum tipo de resistência.
Por essa razão devemos aquecer nossa contribuição política para a prática da cena, devemos insuflar o povo com novas ferramentas e o teatro é uma delas, “não é revolucionário em si mesmo, mas certamente pode ser um excelente “ensaio” da revolução.” (BOAL, p182).
Mas para isso é necessário tornar o corpo expressivo, pois “ estamos acostumados a tudo comunicar através da palavra, o que colabora para o subdesenvolvimento da capacidade de expressão corporal” (BOAL, 2012, p 195). Esta segunda etapa,  em continuidade com a primeira, confirma que a desalienação do corpo pode torna-lo capaz de comunicar as opressões que este sofre.
Não há brechas para o não posicionamento diante a proposta do Teatro do Oprimido, ao criarmos uma cena partindo de sua técnica estaremos debruçados sobre questões que nos afligem diariamente, de outro modo seríamos demasiadamente levianos, além da  absoluta e indispensável consciência sobre a importância do público na cena, como ele mesmo descreve a cerca da Terceira Etapa ( Teatro como linguagem):“Trata-se de fazer com que o espectador se disponha a intervir na ação, abandonando sua condição de objeto e assumindo plenamente o papel de sujeito.” (BOAL, p 199).
Esta discussão assume um âmbito extremo sobre a cena contemporânea atual, recheada de discursos enlatados, pré-fabricados, e que apesar disso são sucesso de público e bilheteria, não apenas porque o povo não está acostumado a uma linguagem crítica e contundente, mas também por vezes não haver outra opção:


  
Indo na contra mão, observando este trecho do Experimento Negro Cosme em movimento (Encenado pelo Grupo Cena Aberta), podemos notar a crítica feita pelo dramaturgo maranhense Igor Nascimento (do grupo Petite Mort)a respeito do papel do público na cena maranhense, desta forma somos colocados diante de um espelho que reflete nossas responsabilidades quanto artistas  de teatro:

O teatro só tem significado se nos permite transcender a nossa visão estereotipada de nossos sentimentos e costumes convencionais, nossos padrões de julgamento – não somente pelo amor de fazê-lo, mas para podermos experimentar o que é real e, tendo já desistido de todas as fugas e fingimentos diários, num estado de completo e desvelado abandono, descobri-nos.” (GROTOVSKI, 1971, p 210)  

“Pode-lhe parecer estranho que assim, sem mais nem menos estejamos questionando o homem e a mulher de hoje (...) mas a partir do momento que assumimos um posto pressupõe-se um posicionamento!” (Aldo Leite, ABC da Cultura Maranhense). Este é o momento de nos colocarmos diante de  nossos objetivos quanto artistas. Ao  nos deparamos com a 4ª etapa o teatro como discurso, percebemos o quanto a proposta de Boal se lança para um extremo caminho democrático, apontando críticas relevantes sobre o teatro feito pela e para a burguesia:

A burguesia já sabe como é o mundo, o seu mundo, e pode portanto apresentar imagens desse mundo completo terminado. A burguesia apresenta o espetáculo. O proletariado e as classes exploradas, ao contrário, não sabem ainda como será seu mundo; consequentemente, o seu teatro será o ensaio e não o espetáculo acabado (...).Ao contrário da educação burguesa, a educação popular ajuda e estimula o espectador a fazer perguntas, a dialogar, a participar.” (BOAL, 2012, p 216).

Deste modo retomamos a necessidade do trabalho aberto feito em comunhão que agrega valores e saberes morais que nos orientaram, mas que hoje estão absolutamente perdidos e o comportamento dos grupos e companhias de teatro também reflete esta correnteza que nos puxa a deriva no individualismo:

Em suma: foi-se a maioria dos pontos firmes e solidamente marcados de orientação que sugeriam uma situação social que era mais duradoura, mais segura e mais confiável do que o tempo de uma vida individual. Foi-se a certeza de que “nos veremos outra vez”, de que nos encontraremos repetidamente e por um longo porvir – e com ela a de que podemos supor que a sociedade tem uma longa memória e de que o que fazemos aos outros hoje virá a nos confortar ou perturbar no futuro; de que o que fazemos aos outros tem significado mais do que episódico, dado que as consequências de nossos atos permanecerão conosco por muito tempo depois do fim aparente do ato – sobrevivendo nas mentes e feitos de testemunhas que desaparecerão. (BAUMAN, 2003, p 47)

Portanto mais do que ter apreendido um método de criação dramática, mergulhei em uma série de questionamentos profundos que perpetuarão durante toda a minha trajetória, não só no teatro como na vida, pois não estão separados ou são dispares, ao contrario sei que são uno, e acredito na busca da profunda conscientização do artista, este que por vezes não abre mão da vaidade, não acreditando no seu papel e nem naquilo que diz.
De outro modo deveríamos ser aqueles que apontam caminhos para a libertação, alçando patamares de discussão incisivos e coerentes, pois:

Por que sacrificamos tanta energia à nossa arte? Não é para ensinar aos outros, mas para aprender com eles o que nossa existência, nosso organismo, nossa experiência pessoal e não treinada tem para nos ensinar; para aprender a romper os limites que nos aprisionam e a libertar-nos das cadeias que nos puxam para trás, das mentiras sobre nós mesmos, que manufaturamos cotidianamente, para nós e para os outros; para as limitações causadas pela nossa ignorância e falta de coragem; em resumo, para encher o vazio em nós; para nos realizarmos. A arte não é um estado da alma ( no sentido de algum momento extraordinário e imprevisível de inspiração), nem um estado do homem ( no sentido de uma profissão ou função social). A arte é um amadurecimento, uma evolução, uma ascensão que nos torna capazes de emergir da escuridão para uma luz fantástica. (GROTOVSKI, 1971, p 211)

BIBLIOGRAFIA
 BOAL, Augusto. Teatro do Oprimido e outras poéticas políticas.12. Ed. Civilização Brasileira. Rio de Janeiro. 2012.
GROTOVSKI, Jerzy. Em busca do Teatro Pobre. In: Declaração de princípios. Ed.Civilização Brasileira. Rio de Janeiro,1971, p 210-218.
ZYGMUNT, Bauman. Comunidade a busca por segurança no mundo atual. In: Tempos de desengajamento. Ed. Jorge Zahar. Rio de Janeiro. 2003. Cap. 3 p 40-48.   
   

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