por Carla Purcina
O teatro nasce quando o ser humano descobre que pode
observar-se a si mesmo: ver-se em ação. (BOAL, 2002a, p. 27)
Advindo da metodologia proposta por Augusto Boal, em sala de
aula pudemos experimentar várias das técnicas utilizadas em seu Teatro do Oprimido. Buscamos desvendar com a prática o proposto teatro do espectoator,
resultante do que pude presenciar do Teatro Imagem e do Teatro Fórum. Na sua
ideologia, Boal acredita que o teatro é a primeira invenção do homem, pois
acredita que o homem dentre todos os animais é o único capaz de observar-se em
ação, tornando- se espectador e ator de sua própria vida, podendo assim
aprender com suas próprias ações. Por isso este termo espectoator, referindo-
se ao que compreende da própria vida, antes mesmo de nascer o teatro tal como
ele é conhecido atualmente.
O teatro do oprimido é teatro na acepção mais arcaica
da palavra: todos os seres humanos são atores, porque agem, e espectadores,
porque observam. Somos todos espect-atores. (…) a linguagem teatral é a
linguagem humana por excelência, e a mais essencial. (BOAL, 2002b, p. 9)
Através do jogo, bem conhecido, do “Opressor e Oprimido”,
experimentamos a sensação de ser oprimido e oprimir a outra pessoa. Para Boal
todas as pessoas passam pela cadeia da opressão, desde um nível mais elevado até os básicos da
sociedade, por isso seu teatro engloba todas as classes sociais e econômicas. No
jogo ao sermos oprimidos, seguindo como por hipnose a mão do opressor, ficamos
como que presos a uma linha, linha esta que nos invade e comanda os nossos
movimentos. Utilizamos várias partituras, planos, velocidades e lugares para
realizar tal exercício. Meu opressor me levou a lugares que nunca pensei
passar, dentro do lixo e em cima do vaso sanitário do banheiro, foi uma
estranha sensação de desconforto em que esse inusitado me provocou, porém uma
experiencia única que jamais teria passado.
Assemelha- se muito a metodologia trabalhada por Boal, com a
de Bertold Brecht, pelo fato de usarem do teatro épico. Porém a uma diferença
significante, pois na daquele o espectador interfere ativamente na cena e não
apenas fica como um receptor passivo da ação; já no trabalho deste, o
espectador somente dialoga mentalmente com a cena, não interferindo
diretamente. Por isso se diz que o Teatro do Oprimido é uma forma genuinamente
democrática de fazer teatro. Boal critica o teatro onde o expectador e o ator
não dialogam, para ele não deve haver separação entre palco e plateia.
Experimentamos isso em um exercício, buscando trabalhar do
Teatro imagem ao Teatro Fórum. A partir de temas delegados pela professora para
grupos divididos na turma, foi proposto que se criassem uma imagem corporal,
uma imagem corporal com um movimento, uma imagem corporal com um movimento e
uma palavra, e por fim uma cena que contivesse todo o procedimento no que já
havia sido criado, formando por tanto uma breve história. Boal sempre propõe que se aborde temas claros
e bem definidos da vida em sociedade, como um problema a ser resolvido.
No caso de meu grupo, ficamos com o tema POLÍTICA, algo bem
polêmico na sociedade onde vivemos. A partir da cena proposta e da ação final a
que se chegou, foi orientado para que se entrasse um interlocutor, um mestre de
cerimônia, aquele ator que seria mediador do diálogo entre a plateia e o
público, o que para Boal chama- se coringa. Não conseguimos muito êxito no que
realmente se compreende o sistema coringa, pois foi indagado pelo ator
selecionado formas não diretas de introduzir o espectoator na cena. Porém cabe
ressaltar que a falha se deu por não realizar o proposto papel a que este ator
tem em cena, que é de controlar a tensão do jogo e o nível das discussões, lembrar
a todos que o que esta sendo demonstrado é teatro e não a vida real,
intermediar a entrada e saída dos espectoatores e recapitular as intervenções,
avaliando com o público o que se deu certo e o que falhou.
Vê- se então que o objetivo do Teatro do Oprimido é fazer com
que a o ser que observa volte a ser também o ser que age, podendo leva- lo a
modificar sua postura cotidiana tornando- o uma pessoa mais atuante na vida
como um todo. Utilizando o teatro como forma de “ensaiar” soluções para
problemas da vida em sociedade.
"Quando temos um fio embaraçado, pegamo- lo assim, levantamo- lo com os fusos para lá e para cá; da mesma forma, se não deixarem, acabaremos com essa guerra, desembaraçaremos o novelo no meio de embaixadas enviadas daqui e dali"
(ARISTÓFANES, Lisístrata)
REFERÊNCIAS:
BOAL,
Augusto. O arco-íris do desejo: método Boal de teatro e terapia. 2ªed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002a.
BOAL, Augusto. Jogos para atores e não atores. 5ªed. Rio de Janeiro, RJ: Civilização Brasileira, 2002b.
BOAL, Augusto. Teatro do Oprimido e outras poéticas políticas. 6ªed. Rio de Janeiro, RJ: Civilização Brasileira, 1991.
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