terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Teatro do Oprimido: Entre ilusões e revoluções


Por Tiara Sousa

“Por isso, eu creio que o teatro não é revolucionário em si mesmo, mas certamente pode ser um excelente “ensaio” da revolução” BOAL, Augusto. 1973. p. 139
Logo na primeira aula sobre o Teatro do Oprimido, assistimos a um vídeo sobre o Augusto Boal e me encantei pelo que assistia, pois o que vi, li e ouvi se fundia com tudo o que eu aprendi a crer e onde moram meus ideais.
Cresci frequentando reuniões comunistas com a minha mãe, fazendo boca de urna para os candidatos que tinham somente um ideal e a troco de nada além da crença num mundo melhor, enquanto na realidade vivíamos o capitalismo e a democracia nada democrática. Cresci lendo os poetas favoritos do meu pai, e entre Nauro Machado e Fernando Pessoa eu e meu pai vivíamos histórias que não eram nossas, e que eram tão nossas, enquanto na realidade a poesia nem era considerada coisa de gente descente.
“A técnica da quebra de repressão consiste em pedir a um participante que se recorde de algum momento em que se sentiu particularmente reprimido, e em que aceitou essa repressão, passando a agir de uma maneira contrária aos seus interesses, ou aos seus desejos.” BOAL, Augusto. 1973. p.174
Para as pessoas de um modo geral a vida é muitas vezes difícil, mas com o tempo elas se habituam com os percalços e enfrentam as dificuldades até com uma certa naturalidade, para outras a vida parece nunca ficar mais fácil, e essas outras tem uma imensa dificuldade de ficar na realidade, costumam passar mais tempo na ilusão, eu falo com propriedade, pois sou uma dessas pessoas. Eu tenho um mundo particular, e nele cabe todos os tipos de fantasia, o que me fez assistir aos filmes de roteiros mais tristes, ouvir as músicas de letras mais intimas, ler os livros de fantasia mais bruta, escrever os textos menos convencionais e me interessar pelo Teatro.
No mundo real eu estudei numa escola onde eu era umas das três únicas negras, eu tirei ótimas notas, mas fui a aluna mais desajeitada do balé, eu contestei e protestei por todas as injustiças que eram cometidas com os outros, mas nunca tive coragem de protestar por mim, criei o meu próprio faz de conta pra fugir de tudo o que me afetava, já que quase tudo me afetava, e nunca mais desaprendi da ilusão.
“As classes dominantes dominam as dominadas através da repressão; os velhos dominam os jovens, através da repressão; certas raças a certas outras, os homens às mulheres, sempre através da repressão. Evidentemente nunca através do entendimento cordial, da honesta troca de ideias, da critica e da auto critica.” BOAL, Augusto. 1973. p.173
O Teatro do Oprimido, para mim tem um sabor diferente, que não é exatamente do novo, ou do desconhecido, mas do autoconhecimento, do resgate da minha biografia de comunismo e poesia, de uma realidade que não me assusta tanto, uma realidade travestida de fantasia e ornamentada com miçangas e paetês, que nem por isso deixa de ser realidade, nem mesmo deixa de me requisitar enquanto ser humano que utiliza a arte para lutar contra os preconceitos, as injustiças e as intolerâncias.
Eu nunca sei o que esperar de uma aula da Disciplina de Prática da Criação Dramática, e de uma maneira que nem eu mesma consigo explicar, eu temo isso tanto quanto gosto. Como perdi a segunda aula da unidade, que segundo meus colegas de turma teve como proposta jogos específicos e corpo, a terceira aula foi ainda mais surpreendente, fomos divididos em grupos e nos foi proposto o Teatro - Jornal.
“Consiste em diversas técnicas simples que permitem a transformação de noticias de jornal em cenas teatrais.” BOAL, Augusto. 1973. p.165
Não pude evitar pensar no quão invasivo era aquele autor, com que direito ele invadia a minha ilusão com seus jogos com elementos de realidade, com aquelas matérias de jornais. Eu já estudei Jornalismo, já trabalhei em jornais, que cobravam que eu escrevesse sobre o mundo real, com uma frieza que eu não tinha, sem poesia, sem romantismo, sem protesto, sem loucura, eu nunca quis escrever sobre nada que não fosse a minha própria ilusão, não era isso que eu esperava encontrar no Teatro, e ainda bem que passado o susto, pude perceber que nem foi exatamente isso que encontrei.
Boal invadia a minha ilusão, a professora Gisele invadia a minha ilusão, e eu e os demais integrantes da minha equipe crivámos a partir de uma notícia, uma comédia e essa comédia soava como um protesto, eu fui ficando mais a vontade e percebendo que essa tal realidade nem me assustava mais tanto assim, já que sou no fundo resultado da criação que tive, o que faz de mim uma contestadora e questionadora, ainda que contida. Eu me encontrava naquele jogo, naquela proposta, naquele resultado, que embora mal acabado devido a nossa inexperiência e a minha péssima narração, era bem aceito e compreendido. E eu que passei a vida inteira fugindo da realidade, corria para ela de braços abertos, com pudores mínimos e com o idealismo de toda uma geração.
Se a proposta de Augusto Boal é de um teatro livre, em que todos são atores e encenadores, em que o corpo deixa de ser tabu e torna-se instrumento de comunicação e de arte, em que o povo oprimido se liberta, em que a ilusão e a realidade se fundem, em que o desconfortável torna-se conteúdo e em que o processo é de natureza tão comunista e poética quanto o meu coração, então que o Teatro do Oprimido seja um ensaio da Revolução, que invada todas as minhas ilusões, sem pedir licença e nem fazer cerimonias.

Referencias: BOAL, Augusto. Teatro do Oprimido e Outras Poéticas Políticas. Rio de Janeiro. Ed. Civilização Brasileira. 1991.

Nenhum comentário:

Postar um comentário