terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

O mundo solidário de Boal

Por: Necylia Monteiro

Augusto Boal não acreditava que seríamos humanos, dizia que éramos pré-humanos, quase iguais a animais, porque não existe solidariedade, e que só através desta conseguiríamos fazer eclodir, nascer uma verdadeira humanidade, e que o teatro pode ajudar nessa caminhada, nascido 1931, no bairro da Penha, na cidade do Rio de Janeiro é o criador de uma forma de teatro entre todas as outras: O teatro do Oprimido!

O teatro do oprimido é teatro na acepção mais arcaica da palavra: todos os seres humanos são atores, porque agem, e espectadores, porque observam. Somos todos espect-atores [...] Todo mundo atua, age, interpreta. Somos todos atores. Até mesmo os atores! Teatro é algo que existe dentro de cada ser humano, e pode ser praticado na solidão de um elevador [...] Em qualquer lugar... Até mesmo dentro dos teatros. (BOAL, 1931.p ix)

Essa forma de teatro é além de política, uma vez que surge da denuncia a um contexto histórico brasileiro que é a ditadura, um tanto terapêutico, social, polêmico, democrático e acima de tudo exemplo de rupturas. Em muito inspirado no teatro político de Brecht[1], utiliza-se de uma mesclagem de leituras artísticas, podendo comportar diferentes estilos de dramaturgia. Boal possibilita através do teatro do oprimido, que as pessoas se expressem e sejam atuantes (questionar, resolver, falar) no que diz respeito a seus problemas em sociedade.

Em seu livro, Jogos para atores e não atores, nos é apresentado um verdadeiro arsenal do teatro do oprimido, em cinco categorias de jogos e exercícios (joguexercícios havendo muito de exercícios nos jogos e vice-versa) este ultimo no sentido de reflexão física sobre si mesmo, isto é, designar movimentos físicos, musculares, respiratórios etc. que ajude a conhecer/reconhecer seu corpo e suas relações. Ao passo que os jogos, tratam da expressividade dos corpos como emissores e receptores de mensagens, são diálogos, exigem interlocução (extroversão).

Sua primeira série, exercícios gerais, é muito utilizada como jogo de aquecimento, possibilita aos participantes um primeiro contato, percebi que é frequente a utilização do Hipnotismo colombiano, cujo jogo consiste em ações de ser o opressor e ser oprimido, podendo ser feito em duplas em que cada participante deve experimentar as duas ações. O jogo é bastante flexível, com inúmeras variantes, esse jogo expõe um pouco sobre o que o Teatro do Oprimido pode te proporcionar, a vivência de ora ser opressor e ora ser oprimido, é um jogo de autoconsciência, em que você experimenta também a solidariedade.

Romper com esses discursos é importante! Quantas vezes eu fui oprimido? Já oprimi alguém? São essas questões que em minha opinião devem ser levantadas, uma vez que se caminha de acordo com Boal a uma humanidade.

Com a segunda série, As caminhadas, mergulhei um pouco mais no universo de Boal, logo no início ele fala que de todas as nossas mecanizações, o andar é o mais frequente, andamos de forma individual, mas esses andares se aproximam quando nos referimos a mecanização, ele reflete um pouco também sobre nossa adaptação a determinados lugares, por exemplo, a maneira como ando no centro histórico de São Luís, não é a mesma de como ando na Rua Grande, centro comercial de São Luís, e BOAL (1931) fala ainda: “Mudar nossa maneira de andar nos faz ativar certas estruturas musculares pouco utilizadas e nos torna mais conscientes do nosso próprio corpo e de suas potencialidades”

A fim de experimentar essa nova (para mim) forma de teatro e de estimular novos estudos e possíveis materiais dramatúrgicos, sugeri a alguns integrantes do Grupo Cara de Arte[2], que me ajudassem nos estudos e experimentações dessas caminhadas, de onde surgiu a intervenção artística Percurso, feita no dia quatro de fevereiro, na Rua Grande, centro comercial de São Luís-MA. Essa intervenção prevê um alerta a sociedade de consumo excessivo e aos andares automatizados do dia-a-dia corriqueiro. Abaixo estão alguns registros, infelizmente não pude editar o vídeo mas em breve ele estará disponível no blog!
 
Peformers: Ruan Paz e Necylia Monteiro
 

 “O povo oprimido se liberta. E outra vez conquista o teatro. É necessário derrubar muros! Primeiro o espectador volta a representar, a atuar: [...] Teatro Imagem. Segundo, é necessário eliminar a propriedade privada dos personagens pelos atores individuais: Sistema Coringa.” O tempo ficou curto com tanta coisa pra conhecer sobre Boal seu Teatro do Oprimido, mas havia um fragmento desse teatro que precisava ser entendido, que para mim é essencial para se entender o todo: o TEATRO IMAGEM!

Perece uma tarefa difícil falar sobre teatro imagem de maneira sintética, uma vez que se constitui da maneira mais genial de todas de utilizar da linguagem corporal como meio de expressão. Mas vamos lá! Experimentamos teatro imagem no dia quinze de janeiro, nos dividimos em quatro grupos com quatro temas distintos sugeridos por nós que eram: Violência, Política, Cultura e Sexualidade. Tivemos um momento de discursão sobre o tema, todos bastante pertinentes ao nosso meio social.

Ao som de palmas, com discursões ainda fervendo em nossas cabeças, imagens eram refletidas, de repente poderíamos ver Violência, Política, Cultura e Sexualidade em nosso corpo! E esse foi nosso aquecimento, feito várias vezes e em ritmos diferentes. Quem dera podermos ter tempo de sobra pra experimentar todos os temas... Tivemos que escolher um, e o que mais estava inserido em nós era Cultura!

O objetivo era primeiro construir corporalmente a imagem real, depois a imagem ideal, nosso material humano para fazer a escultura era o grupo que discutiu Cultura no inicio da aula, e os escultores eram o resto da turma. É difícil se chegar a um consenso quando se pensa de modo individual, queríamos a mesma coisa, que se desse espaço e respeito às diversidades culturais do nosso estado, mas nunca ninguém estava satisfeito, e as esculturas viviam mudando, as coisas se complicam quando não podíamos usar palavras, a vontade era tão gritante que tínhamos que falar!

“Não é permitido falar em nenhuma hipótese. O máximo que pode fazer cada escultor é mostrar com seu próprio rosto a expressão que deseja ver no rosto do participante-estátua. Depois de organizado este conjunto de estátuas, deve-se discutir com os demais participantes, se todos estão de acordo ou se propõem modificações. Todos têm direito de modificar o primeiro conjunto, no todo ou em parte. O importante é chegar a um conjunto modelo, que na opinião geral, seja a concreção escultural do tema dado, isto é: este modelo é a representação física deste tema!” (BOAL, 1975, p.144).
Não chegamos a nossa imagem ideal, logo, ao objetivo do jogo, apesar do teatro ser uma arte de grupo, infelizmente o pensamento individual, não nos deixou chegar a nosso objetivo, ainda temos muitas caminhadas rumo a humanidade, poderíamos começar pelo respeito a diversidade artística cultural! A imagem abaixo foi o nosso ponto, as ilustrações foram só pra reforçar nosso objetivo não cumprido, do respeito a nossas diversidades.
 
Percebemos as enormes discursões desses abrangentes temas, então dinamizamos um pouco dividindo a turma em dois grandes grupos, em que se executa a imagem real um para o outro, dinamizamos ainda mais os quatro grupos iniciais executando ao mesmo tempo: um movimento, depois um som, outro movimento e outro som, em seguida uma pessoa por vez. Mexemos um pouco depois com o grupo política, e ai sim o nosso a parti de foi experimentado, não era mais imagem era cena! Inserimos marcações, havia um roteiro, havia intensões e até experimentamos o tão falado Coringa! Como mostra o vídeo a seguir.
 “Espectador”, que palavra feia! Com o teatro do oprimido, o espectador passa a ser atuante, sujeito, nas mesmas de condições que os atores que também devem ser espectadores, estabelecendo assim certa democracia. Augusto Boal estabelece a poética do oprimido como “essencialmente uma poética de libertação, em que o espectador se libera, pensa e age por si mesmo! Teatro é ação!” (BOAL, 1975, p.169).
Boal faleceu no dia dois de maio de 2009, antes disso expandiu o teatro do oprimido para além do Brasil, onde ainda hoje é praticado, contribuiu em muito para rupturas de uma sociedade oprimida pelas ditaduras, foi exilado por acreditar numa forma de libertação, foi o mestre de muitos outros mestres que hoje enriquecem a dramaturgia brasileira, Boal acreditava que era uma busca, alguém que quer sempre fazer algo que nunca fez e que todo mundo é muita gente ao mesmo tempo, queria ser lembrado não na contemplação, mas na prática, no exercício do seu método, a cada jogo, a cada peça, a cada intervenção, não no retrospecto, mas no futuro, nas ações de cada pessoa, na libertação de cada oprimido!






[1] Brecht, Eugen Bertholt Friedrich (1898-1956). Dramaturgo e diretor de teatro alemão, poeta, jornalista e teórico, responsável por mudanças radicais na elaboração do espetáculo e criação da personagem [...] pretendeu escrever o teatro da era científica, épico ou dialético [...]. Defendeu de forma radical o princípio de que a “arte dramática deve ter a tarefa primordial de despertar a consciência crítica do espectador para os problemas sociais e poéticos de seu tempo”[...]. (TEIXEIRA, 2005.p.55)
[2] O “Grupo Cara de Arte – Formação de Jovens Artistas” foi fundado no bairro Santa Clara no ano de 2006, a partir da realização de atividades de extensão promovidas pelo curso de Teatro da Universidade Federal do Maranhão onde Leônidas Portela (ex-aluno do curso e recente professor do curso de Teatro da UFMA) ministrou oficinas de Teatro e Dança. Suas propostas de trabalho são fundamentadas e visam integrar diferentes linguagens artísticas potencializando a autonomia criativa de seus integrantes. Este projeto já resultou em diferentes experimentos performáticos e montagens de espetáculos de teatro e dança, instalações, intervenções e etc.
 



REFERÊNCIAS
TEIXEIRA, Ubiratan. Dicionário de teatro. São Luís: Instituto Geia, 2005.
BOAL, Augusto. Jogos para atores e não atores. 13ª ed, Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009.
BOAL, Augusto. Teatro do Oprimido e outras poéticas políticas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira S.A, 1975.
PONTUAL, Emanuelle V. Oficina de Teatro do Oprimido, disponível em: http://etorosadosventos.blogspot.com/


Um comentário:

  1. Ótimo texto Xia, muito interessante o teatro do oprimido e sua dualidade. Com certeza essa forma de libertação tem que ser exercitada no Brasil

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