Conceição de Mª Macau Mendes[1]
Sobre
o aquecimento
Em sala de aula, ensaio ou oficina o aquecimento é o portal
de entrada para a preparação do corpo e da mente para a ação teatral. A palavra aquecimento tem como significado,
no dicionário, esquentar, excitar de novo, estimular. Na sala de aula,
habitualmente, aquecer limita-se a esquentar os músculos e excitar o corpo.
Venho pensando sobre a função do aquecimento, mais precisamente no campo da
educação, e um sinônimo que muito chamou minha atenção foi estimular. Quem
estimula incentiva, impulsiona, excita e encoraja, estimular não se limita ao
corpo e liga-se diretamente ao pensamento. E uma das funções do educador é
estimular. Nas primeiras aulas da disciplina Prática de criação dramática,
tivemos contato com o livro Jogar,
representar: práticas dramáticas e formação de Jean Pierre Ryngaert[2]
onde o autor afirma que:
“O
que é bom para training cotidiano de um ator pode não ser bom para os
não-especialistas. Por outro lado, é desejável que esse aquecimento encontre um
sentido em relação aos trabalhos seguintes e não fique suspenso no ar, sem que
se saiba muito bem para que serve esse dispendido de energia.” (RYNGAERT, 2009,
p. 78).
Aquecer necessita ser um impulso para o que vêm depois, e não
uma série de exercícios para deixar os músculos quentes. É necessário haver uma
significação, seguida de uma conexão. É de grande importância deixar claro, e
de modo simples, o porquê dar o primeiro passo e sua ligação com o segundo
momento. Buscar referências culturais, populares no cotidiano, nas brincadeiras
e adaptá-las para um modelo de aquecimento ou apresentação é um dos caminhos
para deixar clara a significação destes.
No decorrer das aulas fomos estimulados/aquecidos por exercícios/brincadeiras
que vinham de referências populares, adaptadas pela Prof.ª Msc. Gisele
Vasconcelos[3]. Em
uma das aulas tivemos o “Vôa, vôa pirá! Peixe pirá!” uma cantiga popular
utilizada nos treinos de capoeira e em rodas de cacuriá[4],
ambas próximas da realidade maranhense. O exercício era simples, através das músicas
vinham os comandos para corpo “Vôa, vôa pirá! Peixe pirá! Bate os pés pirá,
Peixe pirá! Vai pulando pirá. Peixe pirá! Vai girando pirá, Peixe pirá!...”.
Numa outra aula tivemos dois exercícios de origens próximas a
nossa vivência, um em que ficávamos em roda, dançávamos ao passo da ciranda,
cantávamos em coro e colocávamos versos improvisados ou não. O outro, ainda em
roda, era a brincadeira Pai Francisco, onde improvisávamos com as propostas da
música “Pai Francisco entrou na roda tocando seu violão (...) como ele vem
todo requebrado parece um boneco desengonçado” os únicos comandos eram
diretamente ligados às movimentações corporais: o corpo do pai Francisco –
maleável, molengo – e o do delegado – rígido, duro. Os dois exercícios
utilizavam elementos populares tradicionais: a roda e o verso. Os dois com “pé”
no jogo tradicional, na brincadeira.
Segundo Ryngaert (2009) devemos começar sem brutalidade, o
mais próximo da situação real. Servir-se dela como trampolim. Todos os jogos de aquecimentos citados tinham
em comum, referências nas brincadeiras e manifestações populares, permitiam a
liberdade, entendimento e interação entre todos os jogadores. Diferentes de uma
série de exercícios físicos enfadonhos, sem sentidos claros, os jogos aqueceram
o corpo e não cansaram a mente. E exerceram uma conexão com as atividades que
se seguiram.
Sobre
o jogo, sobre a vida, sobre a arte
Se a porta de entrada para a ação dramática é o aquecimento,
o corredor até esta é o jogo. Jogar é uma ação livre, desligada – no tempo e
espaço – da vida cotidiana, que evolui através das regras. Johan Huizinga foi
um professor, historiador e filosofo que escreveu Homo Ludens – o jogo como elemento da cultura, no inicio do século
XX, neste livro defende a ideia de jogo como fenômeno que não
tem interesse material nem de utilidade, se realiza num tempo e num espaço
circunscritos, que evolui com ordens segundo regras dadas (HUIZINGA, 1999).
Partindo deste conceito,
aproximar ou assemelhar o significado de jogo ao significado de brincadeira é
claramente possível e coerente. Os dois possuem um descompromisso com o tempo e
espaço reais e um compromisso com a espontaneidade, as sensações, o lúdico, a
criatividade. Através da brincadeira a
criança desperta a sua imaginação para alcançar soluções, se integra a grupos,
passa por conflitos de convivência, demonstra aspectos da sua personalidade e
ultrapassa limites. Ao brincar, a criança conhece. Sobre a relação criança e
brincadeira, Fernando Pessoa – o poeta português dos heterônimos e homônimos –
possui um poema chamado Criança desconhecida:
Criança desconhecida e suja brincando à minha porta,
Não te pergunto se trazes um recado dos símbolos.
Acho-te graça por nunca ter te visto antes,
E naturalmente se pudesses estar limpa eras outra criança.
Nem aqui vinhas.
Brinca na poeira, brinca!
Aprecio a tua presença só com os olhos.
Vale a pena ver uma cousa sempre pela primeira vez que conhecê-la,
Porque conhecer é como nunca ter visto pela primeira vez,
E nunca ter visto pela primeira vez é só ter ouvido contar.
O modo como esta criança está suja é diferente do modo como as outras estão sujas.
Brinca! Pegando numa pedra que te cabe na mão,
Sabes que te cabe na mão.
Qual a filosofia que chega a uma certeza maior?
Nenhuma, e nenhuma pode vir brincar nunca à minha porta.
Não te pergunto se trazes um recado dos símbolos.
Acho-te graça por nunca ter te visto antes,
E naturalmente se pudesses estar limpa eras outra criança.
Nem aqui vinhas.
Brinca na poeira, brinca!
Aprecio a tua presença só com os olhos.
Vale a pena ver uma cousa sempre pela primeira vez que conhecê-la,
Porque conhecer é como nunca ter visto pela primeira vez,
E nunca ter visto pela primeira vez é só ter ouvido contar.
O modo como esta criança está suja é diferente do modo como as outras estão sujas.
Brinca! Pegando numa pedra que te cabe na mão,
Sabes que te cabe na mão.
Qual a filosofia que chega a uma certeza maior?
Nenhuma, e nenhuma pode vir brincar nunca à minha porta.
Fernando Pessoa aponta
neste poema o conhecer, a singularidade de cada criança e um elemento que é
básico para a imaginação e para a ação teatral: o símbolo. Através da
brincadeira, do jogo se chega aos símbolos. O símbolo é um elemento essencial
da comunicação, e um elemento essencial da ação teatral. O trecho em que
aparece “Qual a filosofia que chega a uma certeza maior?
Nenhuma, e nenhuma pode vir brincar nunca à minha porta.” Remete as ciências
exatas que não buscam os símbolos para “tocar” o homem, a porta é a mente, são
as sensações. A brincadeira é o misto de racional e sensorial e o que é exato é
puramente racional. O homem é espirito e raciocínio, pensamento e
sentimento. O jogo existe por que o
homem vive. Sobre o jogo e o espirito, Huinziga comenta:
A própria
existência do jogo é uma confirmação permanente da natureza supralógica da
situação humana. Se os animais são capazes de brincar, é porque são alguma
coisa mais do que simples seres mecânicos. Se brincamos e jogamos, e temos
consciência disso é porque somos mais do que simples seres racionais, pois o
jogo é irracional. (HUNZINGA, 2005, p.06)
O heterônimo de
Fernando Pessoa que escreveu Criança Desconhecida, é Alberto Caeiro.
Características de sua poesia é a presença das memórias, o saudosismo, a eterna
saudade de sua infância. O jogo tradicional, quando aplicado em sala de aula,
desperta a ligação com a memória corporal, sensorial e cultural. A utilização
do jogo, como busca da memoria cultural, é uma das formas do teatro resgatar as
tradições.
Manifestações,
brincadeiras, costumes tradicionais/populares normalmente são de fácil acesso
ao povo. Nas aulas fomos estimulados a capturar elementos destas manifestações
humanas, e utiliza-las para criações dramatúrgicas e de roteiros. Escravos de Jó,
ciranda cirandinha, estátua, lagarta pintada, pirulito que bate bate todos
jogos tradicionais, que serviram de base para criação de jogos teatrais em cima
dos jogos tradicionais.
Ryngaert (2009)
diz que raramente inocente, o aquecimento mais banal carrega formas e
sensações, cujas marcas reencontramos posteriormente. Relembrando corporalmente
as brincadeiras, e seus resultados após as repetições e alterações, ficou claro
o porquê da utilização de elementos das brincadas populares como aquecimento.
Estes eram os passos para o que vinha depois. Tinham sentidos visíveis.
O ator contemporâneo
necessita possuir autonomia como individuo e como ser da arte. Esta autonomia
nasce do treinamento corporal e mental, da acumulação de informações e
experiências no corpo e na mente. Para Eugênio Barba a dramaturgia é a força
que junta os vários componentes de um espetáculo, e cada ator deve possuir uma
dramaturgia pessoal. A união dessas partículas dramatúrgicas, ele chamava de dramaturgia
orgânica. Barba(2010) fala que a
dramaturgia orgânica é o nível de organização primário de um espetáculo.
O jogo
tradicional, as manifestações populares são caminhos, próximos e abertos, para
a busca de elementos para o trabalho corporal e dramatúrgico do ator. E de
elementos inovadores para a sala de aula. É na busca da tradição que se
encontra a inovação, na instabilidade que se encontra a estabilidade. Para se
fazer teatro é necessário buscar incessantemente o conhecimento, a saída da
zona de conforto. Encontrando liberdade nas regras, vivendo, jogando,
aprendendo, pois, “é brincando que se aprende”.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
RYNGAERT, Jean-Pierre. Jogar, representar: práticas dramáticas e formação. São Paulo.
Cosac Naify, 2009.
BARBA, Eugênio. Como queimar a casa: origens de um diretor. São Paulo. Perspectiva,
2010.
HUIZINGA, Johan. Homo Ludens: o jogo como elemento
da cultura. São Paulo. Perspectiva, 2005.
PEREIRA,
E. Tadeu. O jogo tradicional na formação vocal do
estudante de
graduação
em teatro.
São Paulo/ USP – Belo Horizonte/UFMG
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