por Brenda Oliveira
Mergulhada numa ideia, a Prof. Mestra Gisele
deu iniciou aos processos de criação baseada na metodologia de Jean Pierre
Ryngaert que acredita que: “A maneira de começar (qualquer oficina/
processo) é tão importante que não se pode resolver a questão por uma entrada
uniforme, válida para todas as situações.”, inspirado neste pensamento, começamos
com um jogo de apresentação, fora dos “padrões”, ou seja, com comandos dados no
decorrer do jogo, ao qual foi nomeado de: “Passaporte”. Uma proposta de
apresentação baseada nas impressões de Ryngaert, que propunha uma apresentação
mais descontraída e que se desenvolvesse “naturalmente”, ou seja, sendo
imperceptível a ideia imediata de apresentação, não sendo proposta de forma
verbal sistemática. Formulamos esta, onde os alunos do segundo período do curso
de teatro-licenciatura, deviam colocar seus nomes e no verso um trecho de uma
música da qual os fizessem lembrar um momento importante de suas vidas.
Essa ideia de
fazer jogos e utilizar das experiências das pessoas é algo muito utilizado por
Viola Spolin, pois é dentro de um pensamento livre a respeito dos jogos e da
improvisação teatral que Spolin cria um meio prático e eficaz, a respeito de
como iniciar um momento de integração e processamento da espontaneidade, pois é uma
prioridade nesse parâmetro:
Através da espontaneidade somos
re-formados em nós mesmos. A espontaneidade cria uma exploração que por um
momento nos liberta de quadros de referência estáticos, da memória sufocada por
velhos fatos e informações, de teorias não digeridas e técnicas que são na
realidade descobertas de outros. A espontaneidade é um momento de liberdade
pessoal quando estamos frente a frente com a realidade e a vemos, exploramos e
agimos em conformidade com ela. (SPOLIN, p. 5)
Após todos
terem posto os seus nomes e trechos de músicas, os passaportes foram trocados e
lidos por outros alunos. Tudo foi feito como uma chamada para um voo. Usando
diversas formas: gritando, sussurrando, pulando, etc. até que os donos dos
passaportes voltassem a tê-los em mãos. Essa dinâmica de troca gerou uma descontração
e confiança através do olhar entre os discentes.
No fim, com os
passaportes trocados, cada aluno, propondo-se à sugestão da Mestra, cantou o
trecho/toda a música escrita pelo colega de turma, isso se a conhecesse, mas se
não, não haveria problemas, pois poderiam inventar uma melodia, com isso era
identificado o dono do passaporte. E de uma forma descontraída, espontânea
obtivemos um resultado de sintonia, ordem, respeito e o próprio conhecimento
entre os mesmos.
Fomos aos
poucos tentando entender o que pensa e põe para a prática de Ryngaert, quando ele
coloca esta para a criação a partir de textos não dramatúrgicos, por exemplo:
jornais, poemas, cantigas de roda, brincadeiras populares, depoimentos
pessoais, memórias, entre outros.
A mestra pediu
que os discentes trouxessem versos, para que fossem lidos e daí extraído algo
supostamente dramático e oportuno para uma criação. Essa maneira de processo
criativo deu aos discentes possibilidades de criação livre, já que o próprio
Jean Ryngaert diz: “Não recuso o trabalho feito a partir de um roteiro, mas
acho que devemos ser ambiciosos, questionando todas as produções.”. Essa
metodologia permitiu a todos os acadêmicos do segundo período do curso de
licenciatura em teatro, que se entregassem as improvisações em cima destes
elementos não dramatúrgicos, possibilitando assim, uma gama de maneiras de
expor, em muitas das vezes, o mesmo verso, texto, cantiga de roda, através de
uma cena dramática que explorasse as técnicas de movimento de Laban, não apenas
no corpo, mas transpassando-o para a própria voz.
Todos esses
jogos e propostas de improvisação teatral devem ter um foco, sentido, que será
o alimento para uma criação dramática futura. Como bem expõe Ryngaert: “Uma tentativa de levar em
consideração separadamente o jogo e o sentido com a esperança de alguma
exatidão está fadada ao fracasso, uma vez que há um embate incessante entre
formas e conteúdos.” (RYNGAERT, p.2009.).
É por isso, que
a Mestra sempre propôs jogos que mantinham uma linearidade, em relação aos
processos seguintes. Após cada criação, os discentes permitiam a exposição da
opinião dos demais, a respeito da sua “cena”, citando três palavras: gosto/não
gosto, critico e proponho, assim conseguiam obter resultados, nas seleções dos
trabalhos, mais objetivo e democrático, sendo que os primeiros a começarem a
avaliação das cenas, devem ser sempre os componentes do grupo apresentado.
Essas ideias podem ser expostas oralmente ou escrito (fichas). Todo o processo
pode ser guardado em forma de protocolos, para futuramente podermos utilizar,
adaptando as técnicas, um dia utilizadas.
No fim desse
pequeno processo-prático de criação dramática, os discentes conseguiram obter
ideias e, um outro olhar, sobre o que pode vir, ou o que é a arte, o teatro, a
dança. Tudo isso fez com que o quiproquó de suas mentes fosse cessado e
inaugurado um novo meio de se criar no teatro. Nos momentos que davam inicio as
práticas de registros em texto (protocolos) e em vídeos foram feitos, levando em conta que: “É paradoxal considerar a reprise de
uma improvisação, refazer um ato que se define em geral pela invenção e pela
novidade. No entanto, o sentido se trabalha.”. “[...] O processo à criação não
é fornecido a todos automaticamente. Mas o criador não chega armado à obra.”
(RYNGAERT,2009.p 221)
Contudo,
fomentemos em nós a importância de um processo prático de criação para todas as
montagens, espetáculos, mostras, que estarão por vir.
Referências
VIOLA, Spolin. Improvisação para o teatro. São Paulo: Perspectiva.
RYNGAERT, Jean Pierre. Jogar, representar: práticas
dramáticas e formação. São Paulo: Cosac Naify.2009
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