terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Movimento Criativo


                                                                                                                                     por Brenda Oliveira

 Mergulhada numa ideia, a Prof. Mestra Gisele deu iniciou aos processos de criação baseada na metodologia de Jean Pierre Ryngaert que acredita que:  “A maneira de começar (qualquer oficina/ processo) é tão importante que não se pode resolver a questão por uma entrada uniforme, válida para todas as situações.”, inspirado  neste pensamento, começamos com um jogo de apresentação, fora dos “padrões”, ou seja, com comandos dados no decorrer do jogo, ao qual foi nomeado de: “Passaporte”. Uma proposta de apresentação baseada nas impressões de Ryngaert, que propunha uma apresentação mais descontraída e que se desenvolvesse “naturalmente”, ou seja, sendo imperceptível a ideia imediata de apresentação, não sendo proposta de forma verbal sistemática. Formulamos esta, onde os alunos do segundo período do curso de teatro-licenciatura, deviam colocar seus nomes e no verso um trecho de uma música da qual os fizessem lembrar um momento importante de suas vidas.
Essa ideia de fazer jogos e utilizar das experiências das pessoas é algo muito utilizado por Viola Spolin, pois é dentro de um pensamento livre a respeito dos jogos e da improvisação teatral que Spolin cria um meio prático e eficaz, a respeito de como iniciar um momento de integração e processamento da espontaneidade, pois é uma prioridade nesse parâmetro:

Através da espontaneidade somos re-formados em nós mesmos. A espontaneidade cria uma exploração que por um momento nos liberta de quadros de referência estáticos, da memória sufocada por velhos fatos e informações, de teorias não digeridas e técnicas que são na realidade descobertas de outros. A espontaneidade é um momento de liberdade pessoal quando estamos frente a frente com a realidade e a vemos, exploramos e agimos em conformidade com ela. (SPOLIN, p. 5)

Após todos terem posto os seus nomes e trechos de músicas, os passaportes foram trocados e lidos por outros alunos. Tudo foi feito como uma chamada para um voo. Usando diversas formas: gritando, sussurrando, pulando, etc. até que os donos dos passaportes voltassem a tê-los em mãos. Essa dinâmica de troca gerou uma descontração e confiança através do olhar entre os discentes.
No fim, com os passaportes trocados, cada aluno, propondo-se à sugestão da Mestra, cantou o trecho/toda a música escrita pelo colega de turma, isso se a conhecesse, mas se não, não haveria problemas, pois poderiam inventar uma melodia, com isso era identificado o dono do passaporte. E de uma forma descontraída, espontânea obtivemos um resultado de sintonia, ordem, respeito e o próprio conhecimento entre os mesmos.
Fomos aos poucos tentando entender o que pensa e põe para a prática de Ryngaert, quando ele coloca esta para a criação a partir de textos não dramatúrgicos, por exemplo: jornais, poemas, cantigas de roda, brincadeiras populares, depoimentos pessoais, memórias, entre outros.
A mestra pediu que os discentes trouxessem versos, para que fossem lidos e daí extraído algo supostamente dramático e oportuno para uma criação. Essa maneira de processo criativo deu aos discentes possibilidades de criação livre, já que o próprio Jean Ryngaert diz: “Não recuso o trabalho feito a partir de um roteiro, mas acho que devemos ser ambiciosos, questionando todas as produções.”. Essa metodologia permitiu a todos os acadêmicos do segundo período do curso de licenciatura em teatro, que se entregassem as improvisações em cima destes elementos não dramatúrgicos, possibilitando assim, uma gama de maneiras de expor, em muitas das vezes, o mesmo verso, texto, cantiga de roda, através de uma cena dramática que explorasse as técnicas de movimento de Laban, não apenas no corpo, mas transpassando-o para a própria voz.
Todos esses jogos e propostas de improvisação teatral devem ter um foco, sentido, que será o alimento para uma criação dramática futura. Como bem expõe Ryngaert: “Uma tentativa de levar em consideração separadamente o jogo e o sentido com a esperança de alguma exatidão está fadada ao fracasso, uma vez que há um embate incessante entre formas e conteúdos.” (RYNGAERT, p.2009.).

É por isso, que a Mestra sempre propôs jogos que mantinham uma linearidade, em relação aos processos seguintes. Após cada criação, os discentes permitiam a exposição da opinião dos demais, a respeito da sua “cena”, citando três palavras: gosto/não gosto, critico e proponho, assim conseguiam obter resultados, nas seleções dos trabalhos, mais objetivo e democrático, sendo que os primeiros a começarem a avaliação das cenas, devem ser sempre os componentes do grupo apresentado. Essas ideias podem ser expostas oralmente ou escrito (fichas). Todo o processo pode ser guardado em forma de protocolos, para futuramente podermos utilizar, adaptando as técnicas, um dia utilizadas.
No fim desse pequeno processo-prático de criação dramática, os discentes conseguiram obter ideias e, um outro olhar, sobre o que pode vir, ou o que é a arte, o teatro, a dança. Tudo isso fez com que o quiproquó de suas mentes fosse cessado e inaugurado um novo meio de se criar no teatro. Nos momentos que davam inicio as práticas de registros em texto (protocolos) e em vídeos foram feitos, levando em conta que: “É paradoxal considerar a reprise de uma improvisação, refazer um ato que se define em geral pela invenção e pela novidade. No entanto, o sentido se trabalha.”. “[...] O processo à criação não é fornecido a todos automaticamente. Mas o criador não chega armado à obra.” (RYNGAERT,2009.p 221)

Contudo, fomentemos em nós a importância de um processo prático de criação para todas as montagens, espetáculos, mostras, que estarão por vir.

Referências
VIOLA, Spolin. Improvisação para o teatro. São Paulo: Perspectiva.
RYNGAERT, Jean Pierre. Jogar, representar: práticas dramáticas e formação. São Paulo: Cosac Naify.2009


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