sábado, 15 de dezembro de 2012

“Navegando em Alto Mar”, por Lígia da Cruz


 Embarcamos com nossos passaportes no primeiro contato com a comandante Professora Gisele, ela que conduz o leme desse barco com alegria, música, dança, poesia e um olhar sensível sobre seus tripulantes, que caminham com incerteza, mas confiam nas habilidades de navegar no Barco da Representação.
Nossa líder náutica ensina a navegar nas Águas da Criação Dramática, no entanto  aconselha sobre a vida, para que futuramente  a tripulação saiba navegar sozinha. É preciso mais do que conhecimento náutico, é necessário entender que o simples nos constrói para exercermos o mais complexo.
Nossa comandante nos alertou para termos  habilidades que nos ajudem a navegar o barco, e eu como forasteira notei, que  esta foi a primeira vez que ouvi alguém falar sobre isso por aqui, buscar conhecimentos como base para estar com o corpo preparado e vivo para então se enveredar em alto mar.
Além disso, também acredito nessa construção em um campo filosófico, buscar minha identidade em um sentido ancestral,  o passado histórico das nossas famílias são esquecidos em troca de baratos presentes trazidos pela globalização mostrando assim uma imagem do que gostaríamos de ser, sem refletir aquilo que somos.

“A dependência que o homem contemporâneo vive em relação a muitos produtos da moderna tecnologia lhe acentuou a pobreza de vivências em que ele participa de forma imediata, como ser corporal e motriz. A poderosa indústria dos meio de comunicação, ao mesmo tempo que traz ao homem inúmeras possibilidades de aquisição de conhecimentos e novas perspectivas , afasta-os de experiências sensíveis imediatas do mundo que o cerca”. (GONÇALVES, 19994, p.28)

Por isso aqueles tripulantes que querem no futuro desbravar os mares da criação cênica devem dedicar-se ao exercício da experiência, abrir seus horizontes abusando da luneta:

“Quando o aluno vê as pessoas e a maneira como elas se comportam quando juntas, quando vê a cor do céu, ouve os sons no ar, sente o chão sob seus pés e o vento em sua face, ele adquire uma visão mais ampla de seu mundo pessoal e seu desenvolvimento como ator é acelerado. O mundo fornece o material para o teatro, e o crescimento artístico desenvolve-se par e passo com o nosso reconhecimento e percepção do mundo e de nós mesmos dentro dele”. ( SPOLIN, 2008,  p13)

Entender que o simples é essencial para contar uma história, não é tarefa fácil pois, temos que reconstruir aquilo que está dentro de nós e só conseguiremos saber o que vem de dentro quando abrirmos o nosso olhar para o outro.
                    Esta reflexão me persegue em todos os portos que atraquei até chegar no Maranhão, no entanto ela vem a tona quando embarco na tempestade da construção dramática que é a culminância dessa viagem em mar aberto.
Essa dificuldade, sempre presente na minha trajetória, como um fantasma de um pirata sanguinário que persegue a todos que ousam incomoda-lo  é um grande obstáculo quando preocupamo-nos em trazer algo novo, diferente e que comunique aquilo que temos transformado dentro de nós mesmos.
Então no encontro com a nossa comandante somos despertados, ela nos  mostra outros pontos de partida para a construção de uma cena e posteriormente de uma estrutura dramática. Compreender que programar um roteiro para elaboração de um texto dramatúrgico é apenas um formato utilizado dentre um universo tão complexo quanto os seres que habitam as profundezas do oceano instiga a vontade de ser um mergulhador que desbrava os sete mares em busca de milhares de possibilidades.

“Em princípio, o roteiro deveria ser apenas um ponto de partida em torno do qual os jogadores são convidados a inventar. Nas práticas, a improvisação quase sempre se limita a uma ilustração sumária do que foi decidido, sem grande criatividade. Os jogadores se esforçam para respeitar a narrativa inicial e dedicam um cuidado particular a seu desenlace, às vezes assimilado a uma “queda” cômica. Limitados por suas próprias instruções, é raro que os participantes ousem dar muito jogo à sua história” (RYANGAERT, 2009,  p115)

Apesar de não negar a utilização do roteiro, para a construção de uma estrutura dramática a chefe da tripulação nos introduziu outro método, utilizando jogos tradicionais (da nossa própria cultura) como base para a edificação  de cenas feitas em grupos de quatro ou cinco jogadores, cada jogo tradicional indica uma estrutura que oferece ritmo, música, enredo, movimentação corporal e conflito.
Quando nos propomos a colocar em prática a cena  nos apegamos a alguns desses aspectos elaborando um esqueleto e posteriormente quando expomos isso para tripulação, nossa chefe nos provoca de diversas formas o que  nos confere resultados ainda melhores.
Com a tarefa de elaboração da cena a partir dos jogos tradicionais percebemos que as possibilidades são infinitas, conseguimos sair do “senso comum” e elaborar cenas que comunicam. Ainda que aquilo que queremos dizer não seja minuciosamente o que o espectador entenderá a mensagem geral será compreendida através do texto verbal ou não verbal e da forma de representação, por meio dos códigos existentes, como afirma Anne Ubersfeld:

“Na representação, toda mensagem teatral requer, pois, para ser decodificada, uma multidão de códigos, o que permite ao teatro, aliás paradoxalmente, ser ouvido e entendido mesmo por aqueles que não dominam todos os códigos: pode-se entender uma peça sem entender as alusões nacionais ou locais , ou sem captar um código cultural complexo ou em desuso” (UBRSFELD, 1996,  p12).

Quando compreendemos que a leitura do espectador também está aberta a um campo de sensações intransponível, começamos a nos libertar em cena, entender que não é necessário adequar, tolher o processo criativo para desenhar um sentido literal para o público, isso faz com que o trabalho cresça e se desenvolva, tornando-o ainda mais criativo.
Além de encontrarmos potencialidades  dentro dessa proposta, todos dentro deste barco se identificam com o trabalho, posto que, essas brincadeiras tradicionais fizeram parte da infância de todos nós, há legitimidade naquilo que está sendo construído posto que existe identificação dos participantes.
Essa aventura veio de encontro com questionamentos e desejos de ideais que já moravam dentro de mim, procurando entender o sentido de todo o meu processo artístico, quais são meus alicerces para projetar um futuro que eu possa partilhar utilizando o teatro como ferramenta de libertação, pois o próprio procedimento adotado como forma de criação dramática, já nos colocou nessa conjuntura.    

Referências:
GONÇALVES, Maria Augusta Salim. Sentir, pensar, agir: Contemporaneidade e educação. In: O corpo na vida cotidiana. Campinas. Ed: Papirus, 1994. Cap. 1, p.13-37.
RYNGAERT, Jean-Pierre. Jogar, representar: Práticas dramáticas e formação. Ed: COSAC, São Paulo, 2009.
 SPOLIN, Viola. Improvisação para o Teatro. 5. Ed. São Paulo. Ed: Perspectiva. São Paulo, 2008.
UBRSFELD, Anne. Para ler o Teatro. Ed.Perspectiva, São Paulo, 1996.  

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