Por Tiara Sousa
Eu nunca havia brincado de
Escravo de Jó, alguns jogos Teatrais ainda me causam temor, o que de fato impõe
a mim romper bloqueios que já são tão familiares, mas que infelizmente ainda
ando procurando meios de superá-los. E durante esses meus 27 anos de vida, eu
tenho tentado superar a timidez, a introversão, a introspecção, o medo do olhar
do outro. Eu procurei essa superação nos lugares pelos quais passei, no olhar
dos meus amigos, na proteção da minha família, nas experiências boas e ruins,
mas os meus bloqueios ainda estavam lá, tão íntimos e intrometidos e eu ainda
não sabia como lhe dar com eles.
Mas eu estou cursando Teatro
e vivenciando o impasse do amor pela arte e do medo da exposição. Logo na
primeira aula da disciplina Prática de Criação Dramática nos foi proposto um
jogo denominado Passaporte, em que teríamos que escrever num pedaço de papel um
trecho de uma canção que significasse algo para nós e o nosso nome no verso. Foi
então que escrevi o trecho da música João e Maria, de autoria de Chico Buarque:
“Agora eu era o rei,
era o bedel e era também juiz. E pela minha lei a gente era obrigado a ser
feliz”. (HOLANDA, Chico Buarque, 1977)
E no decorrer da aula, dos
jogos passaporte e escravo de Jó, onde eu inicialmente me sentia obrigada a
vencer a timidez e participar, tive a agradável surpresa de finalmente
encontrar a infância na seriedade leve do aprendizado daquela disciplina, de
repente eu era uma criança, e todos os meus colegas de turma também eram, nós
brincávamos de ser livres, e eu me libertava dos anseios que há muito me paralisavam.
Dessa maneira, o trecho da canção que escolhi de repente foi tão coerente àquela
situação, a professora Gisele propunha jogos, que de fato nos faziam esquecer
do mundo lá fora e nos obrigavam a “ser felizes”. Cabe aqui a afirmação de Jean
Pierre:
“Considero de grande
importância, no começo, que os indivíduos tenham a ocasião de se situarem
pessoalmente, de modo simples e concreto, no espaço do jogo e dentro do grupo.”
(RYNGAERT, Jean Pierre. 2009. p.80)
Nas aulas seguintes a turma
foi dividida em quatro equipes, que foram inspiradas a criar de acordo com o
tempo, o movimento, o coro e a narrativa da canção Escravo de Jó. Embora
enquanto jogadores estávamos livres para criar, tínhamos que seguir as demandas
que o jogo nos propusera. Cabe aqui o trecho em que Jean Pierre afirma:
“O animador, emissor único,
dá instruções incontornáveis, e provavelmente eficazes, que criam uma atmosfera
tornando a pseudocomunicação quase obrigatória.” (RYNGAERT, Jean Pierre. 2009.
p.79)
Refletindo sobre as
instruções incontornáveis acima citadas, percebi que as propostas de tempo,
movimento, coro e narrativa da professora deixavam a mim e a outros mais
seguros durante a execução do jogo e a prosseguir com a leitura do texto
descobri que é exatamente uma das finalidades, uma vez que o roteiro nos passa
uma certa segurança, como afirma Jean Pierre:
“O roteiro dá
segurança para aqueles que sentem-se paralisados pela improvisação sem nenhum
ponto de referencia e faz parte das propostas mínimas de ponto de partida da
improvisação.” (RYNGAERT, Jean Pierre. 2009. p.115)
Após as apresentações de cada
equipe, foi proposto a turma outros jogos inspirados no jogo inicial, fazendo
da prática uma aplicação da teoria, pois Jean Pierre ressalta:
“A aplicação de um
programa preestabelecido nem sempre é a melhor maneira de atender á demanda dos
jogadores.” (RYNGAERT, Jean Pierre. 2009. p.78)
Creio que as novas propostas
baseadas numa velha proposta, fazem com que as dificuldades surjam de uma
maneira mais leve. Cabe aqui a afirmação de Jean Pierre:
“Assim, tento introduzir
dificuldades numa sequencia aparentemente fácil, procuro logo fazer entender
que as propostas solicitarão pessoas presentes.” (RYNGAERT, Jean Pierre. 2009.
p.80)
Embora a solicitação que
impõe pessoas presentes ainda me amedronte, ou me faça questionar a minha
capacidade de estar ali, participando e contribuindo com a execução destes
jogos, a maneira como a professora Gisele aplica a teoria na prática deixando
“aparentemente fácil” me ajuda a continuar. Cabe aqui a fala de Jean Pierre em
uma oficina:
“Hoje, talvez seja a
timidez, a ausência um pouco dolorosa daqueles que escolheram estar aqui e, no
entanto, não dão mais a impressão de querer isso.” (RYNGAERT, Jean Pierre.
2009)
O fato é que embora eu ainda
seja tímida e o meu foco no Teatro não seja a atuação, mas sim a dramaturgia e
o ensino, eu escolhi o Teatro, só que diferente do que dizem as palavras acima,
eu descubro a cada aula a querer estar na mesma, transformando as barreiras da
disciplina Prática da Criação Dramática na tão aclamada superação da timidez
que como já afirmei, procurei nos lugares, nos olhares, na proteção, nas
experiências, quando ela sempre esteve no Teatro.
Referencias:
RYNGAERT, Jean Pierre. Jogar, Representar:
Práticas Dramáticas e Formação. São Paulo. Ed. Cosac Naify. 2009.
HOLANDA, Chico Buarque. João e Maria. 1977
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