segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Superação: Novas propostas baseadas numa velha proposta


Por Tiara Sousa

Eu nunca havia brincado de Escravo de Jó, alguns jogos Teatrais ainda me causam temor, o que de fato impõe a mim romper bloqueios que já são tão familiares, mas que infelizmente ainda ando procurando meios de superá-los. E durante esses meus 27 anos de vida, eu tenho tentado superar a timidez, a introversão, a introspecção, o medo do olhar do outro. Eu procurei essa superação nos lugares pelos quais passei, no olhar dos meus amigos, na proteção da minha família, nas experiências boas e ruins, mas os meus bloqueios ainda estavam lá, tão íntimos e intrometidos e eu ainda não sabia como lhe dar com eles.
Mas eu estou cursando Teatro e vivenciando o impasse do amor pela arte e do medo da exposição. Logo na primeira aula da disciplina Prática de Criação Dramática nos foi proposto um jogo denominado Passaporte, em que teríamos que escrever num pedaço de papel um trecho de uma canção que significasse algo para nós e o nosso nome no verso. Foi então que escrevi o trecho da música João e Maria, de autoria de Chico Buarque:
“Agora eu era o rei, era o bedel e era também juiz. E pela minha lei a gente era obrigado a ser feliz”. (HOLANDA, Chico Buarque, 1977)
E no decorrer da aula, dos jogos passaporte e escravo de Jó, onde eu inicialmente me sentia obrigada a vencer a timidez e participar, tive a agradável surpresa de finalmente encontrar a infância na seriedade leve do aprendizado daquela disciplina, de repente eu era uma criança, e todos os meus colegas de turma também eram, nós brincávamos de ser livres, e eu me libertava dos anseios que há muito me paralisavam. Dessa maneira, o trecho da canção que escolhi de repente foi tão coerente àquela situação, a professora Gisele propunha jogos, que de fato nos faziam esquecer do mundo lá fora e nos obrigavam a “ser felizes”. Cabe aqui a afirmação de Jean Pierre:
“Considero de grande importância, no começo, que os indivíduos tenham a ocasião de se situarem pessoalmente, de modo simples e concreto, no espaço do jogo e dentro do grupo.” (RYNGAERT, Jean Pierre. 2009. p.80)
Nas aulas seguintes a turma foi dividida em quatro equipes, que foram inspiradas a criar de acordo com o tempo, o movimento, o coro e a narrativa da canção Escravo de Jó. Embora enquanto jogadores estávamos livres para criar, tínhamos que seguir as demandas que o jogo nos propusera. Cabe aqui o trecho em que Jean Pierre afirma:
“O animador, emissor único, dá instruções incontornáveis, e provavelmente eficazes, que criam uma atmosfera tornando a pseudocomunicação quase obrigatória.” (RYNGAERT, Jean Pierre. 2009. p.79)
Refletindo sobre as instruções incontornáveis acima citadas, percebi que as propostas de tempo, movimento, coro e narrativa da professora deixavam a mim e a outros mais seguros durante a execução do jogo e a prosseguir com a leitura do texto descobri que é exatamente uma das finalidades, uma vez que o roteiro nos passa uma certa segurança, como afirma Jean Pierre:
O roteiro dá segurança para aqueles que sentem-se paralisados pela improvisação sem nenhum ponto de referencia e faz parte das propostas mínimas de ponto de partida da improvisação.” (RYNGAERT, Jean Pierre. 2009. p.115)
Após as apresentações de cada equipe, foi proposto a turma outros jogos inspirados no jogo inicial, fazendo da prática uma aplicação da teoria, pois Jean Pierre ressalta:
“A aplicação de um programa preestabelecido nem sempre é a melhor maneira de atender á demanda dos jogadores.” (RYNGAERT, Jean Pierre. 2009. p.78)
Creio que as novas propostas baseadas numa velha proposta, fazem com que as dificuldades surjam de uma maneira mais leve. Cabe aqui a afirmação de Jean Pierre:
“Assim, tento introduzir dificuldades numa sequencia aparentemente fácil, procuro logo fazer entender que as propostas solicitarão pessoas presentes.” (RYNGAERT, Jean Pierre. 2009. p.80)
Embora a solicitação que impõe pessoas presentes ainda me amedronte, ou me faça questionar a minha capacidade de estar ali, participando e contribuindo com a execução destes jogos, a maneira como a professora Gisele aplica a teoria na prática deixando “aparentemente fácil” me ajuda a continuar. Cabe aqui a fala de Jean Pierre em uma oficina:
“Hoje, talvez seja a timidez, a ausência um pouco dolorosa daqueles que escolheram estar aqui e, no entanto, não dão mais a impressão de querer isso.” (RYNGAERT, Jean Pierre. 2009)
O fato é que embora eu ainda seja tímida e o meu foco no Teatro não seja a atuação, mas sim a dramaturgia e o ensino, eu escolhi o Teatro, só que diferente do que dizem as palavras acima, eu descubro a cada aula a querer estar na mesma, transformando as barreiras da disciplina Prática da Criação Dramática na tão aclamada superação da timidez que como já afirmei, procurei nos lugares, nos olhares, na proteção, nas experiências, quando ela sempre esteve no Teatro.

Referencias:
RYNGAERT, Jean Pierre. Jogar, Representar: Práticas Dramáticas e Formação. São Paulo. Ed. Cosac Naify. 2009.
HOLANDA, Chico Buarque. João e Maria. 1977


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