terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Sim! Para começar!


Por: Necylia Monteiro
Era nosso primeiro dia de aula de verdade, pelo menos pra mim o desafio começava com chegar a universidade as sete e trinta da manhã, consegui chegar as sete e trinta e um e a professora Gisele já estava na sala, nossa caixa de sensações a partir de agora, afinal todos os ambientes tem formato de caixa, ela falava sobre a disciplina, olhando para cada um nós, nos apresentou livros, e falando que ficaremos juntos 90 horas e outras coisas mais...
Logo em seguida começamos... Sim! O começo todo mundo sempre espera pelo começo pra ver até onde pode ir, pra imaginar o que vem por ai, e o quanto poderá aprender, mas é claro que nunca advínhamos...
“É mais ou menos admitido que uma boa oficina começa por uma boa preparação, um aquecimento corporal, jogos de comunicação...Na verdade, o que eu questionava e que continua a me preocupar é a maneira como essas atividades se definem e como são recebidas pelos participantes.”(RYNGAERT,2009, p. 77)
Nessa parte, todos somos meros corpos esperando que algo aconteça, e de acordo com Pierre (2009) se prevê dificuldade quando não se conhece o grupo, a caixa (a sala), e quando não se está sensível a atmosfera do grupo, e do momento. Fala também da necessidade de se ganhar segurança. Em nossa turma, a professora Gisele propôs um jogo de apresentação, ele envolvia nossos nomes, músicas, ritmos diferentes, passos diferentes, e era exatamente isso que somos, todos diferentes. De início, (primordialmente e imaturamente) pensei: Jogo de apresentação??? Mas já nos conhecemos a mais de seis meses!
Mas...
Será que nos conhecíamos mesmo? Conhecíamos aquele espaço? Já conhecíamos a nossa instrutora? (saber seu humor predominante, seu jeito de trabalhar e dialogar, seus métodos de avaliação...). Foi quando percebi a nova situação a que o jogo nos propunha, no “passaporte” deveria conter o nome que gostávamos de ser chamados e nossas músicas, ou melhor nossa música, (que para mim foi bem complicado decidir uma música só, sem pensar três vezes a primeiro que veio a cabeça) que mudava completamente o caráter do termo apresentação. Assim Ryngaert discorre:
“Preocupado em evitar formalização, não proponho apresentações sucessivas acompanhadas de verbalização sistemática. Mas provoco situações em que cada um encontra ocasião para realizar um ato individual simples dizendo (jogando) alguma coisa que equivale a uma apresentação, isto é, a afirmar que se está presente, e bem presente...” (RYNGAERT, 2009, p.80)
E assim o “passaporte do Eu”, como resolvi chamar o jogo prosseguiu, a partir de agora estaríamos numa viagem, e na confusão do aeroporto trocamos nossos passaportes uns com os outros, numa embaralhada só, o problema agora era encontrá-lo. “Chamem o dono do passaporte com raiva!”, “levem dançando lentamente...”, “chamem com carinho!’, “ entreguem em plano baixo”... e tantas outras propostas, no final éramos uma roda dentro da caixa, os passaportes ainda perdidos, desta vez tínhamos que cantar a música que outro havia escolhido até ele reconhecer e cantar junto, dentro da roda. Achei essa parte bastante interessante pois, por diversas vezes, as músicas nos traduzem, falam por nós e denunciam nosso jeito.
Muitos de nós relembraram a infância, lugar onde nasceu, ou alguém especial, daí toda importância da escolha dessa música, haviam algumas que ao serem cantadas, já percebia-se a quem se referia. São aqueles momentos em que se diz: “Essa música é a tua cara!” 
Escolhi a música O outro (Figura1) na verdade ela é um pequeno poema de Mário de Sá Carneiro, musicado por Adriana Calcanhoto, lembro bem da minha mãe cantando em diversas situações, nas quais eu parava tudo para ouvi-la. E como é uma música pouco conhecida, imaginei que meu colega não saberia cantá-la.
Figura 1 Passaporte do Eu
“Eu não sou eu, nem sou outro, sou qualquer coisa de intermédio, e lá na ponte de tédio, que vai de mim para o outro.”
Passaportes entregues, hora de passar para o próximo jogo, Escravos de Jó.
Quando Gisele pediu que pegássemos um lado de nossos sapatos,(figura 2) sentássemos em roda, fiquei bastante curiosa pelo que estava por vir, nossa professora parecia ter um certo cuidado, misturado com prazer e carinho ao explicar cada coisa pra gente, e logo que ela terminou de explicar sobre o Jogo Escravos de Jó, eu entendi com clareza os objetivos da primeira unidade, Práticas de Criações Dramáticas a partir de jogos tradicionais.
Figura 2 Meus sapatos!
Escravos de Jó, jogavam cachangá, tira, bota, deixa ficar, guerreiros com guerreiros fazem zig, zig, zá, guerreiros com guerreiros fazem zig, zig, zá!
Mexíamos nossos sapatos conforme a música, onde os sapatos passavam por todos! Depois o desafio ela cantar murmurando, até aí foi fácil, relativamente, a dificuldade veio mesmo quando ocultamos a música, havia apenas o som dos sapatos batendo no chão, o objetivo era estarmos conectados entre si e ao ritmo da música! Após algumas tentativas, conseguimos!!
Ainda em roda, pra finalizar nossas apresentações: Por onde meus sapatos andaram... Todos falaram por onde andamos até chegar ali, ali em todos os sentidos da palavra, ali universidade, ali teatro de bolso, ali artes, ali vida. Foi significativo e de grande importância ouvir a trajetória dos meus colegas, uns falavam de engarrafamento, outros os que faziam antes do teatro, uns da infância, outros de lugares mesmo, eu falei das cores do meu sapato, que naquele dia estavam azuis, que pra muitos é uma cor que representa tristeza, ou para outros a alegria, como um céu azul de terça, pra mim é tudo isso, acredito que o valor das cores cada um que atribui, tanto que tenho sapatos de muitas cores, e vivo mudando eles de cor, e a vida é mesmo assim, vive mudando, de planos, de cores, de sabores...
Nossa turma parecia estar toda ali, com novas expectativas, novas esperanças de novos conhecimentos, tudo novo de novo!, até aprecia primeiro dia de aula, apesar de todos os pesares, dos atrasos, da timidez, dos conflitos, das barreiras que o aprendizado trás, estávamos todos ali, começando outra vez. Como diz Pierre (2009) “Começar sem brutalidade”:
Começar sem brutalidade, o mais próximo da situação real [...] Hoje talvez a timidez, a ausência um pouco dolorosa daqueles que escolheram estar aqui e, no entanto, não dão mais a impressão de querer isso. Jogamos pra dominar essa sala fria e nos dominar desapareendo na sala, dissolvendo as trinta presenças entre esses muros pouco acolhedores. (RYNGAERT,2009. p. 83).

REFERÊNCIAS

RYNGAERT, Jean Pierre. Jogar,representar: práticas dramáticas e formação. São Paulo. Ed.Cosac Naify, 2009.







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