terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Diário de Bordo


Por Fernando Nascimento

Finalizar o primeiro período após anos sonhando em estudar teatro foi o primeiro passo significativo na minha vida acadêmica. Agora, dia 13 de novembro de 2012, dou mais um grande passo rumo à minha formação no Curso Licenciatura em Teatro, da Universidade Federal do Maranhão.
Escolhi carinhosamente “Diário de Bordo” como título para o relato das atividades que serão realizadas na disciplina Prática de Criação Dramática, pelo fato de, no meu primeiro ano do ensino médio, ao fazer parte de um grupo de teatro no Complexo Educacional Governador Edson Lobão – CEGEL, dirigido pelo professor de teatro Anderson Pinheiro, ter sido solicitado para fazer também o relato das atividades desenvolvidas durante o processo do grupo.
Na época, montamos Hamlet-Máquina, de Heiner Muller,  com participação no Festival Maranhense de Teatro Estudantil. No registro das atividades de montagem do espetáculo, eu fui o único, de todo o grupo, que escrevi até o fim do processo o diário de bordo. Agora, na graduação, voltar a escrever, torna-se gratificante, pois estimula a percepção durante as aulas e aguça o olhar que já não é mais um olhar de um leigo, fazendo teatro, mais sim, de um estudante em processo de formação, que será um futuro teatro-educador.
Desta forma, percebo esse compromisso com o projeto educativo como sendo um competente trabalho do futuro docente que surge desde cedo, nesses primeiros períodos da graduação. Afinal, essa ação educativa em arte com crianças e adolescentes, exige do professor entrelaçar a sua práxis artística e estética a consistentes propostas pedagógicas. Esta é uma das intenções da disciplina que observei logo no início da apresentação da professora Gisele Vasconcelos.
A partir dai, já faço um paralelo com o que nos relatam Ferraz e Fusari (1999) que, em síntese, dizem que é preciso saber arte e saber ser professor de arte junto a crianças e adolescentes, formando-os como futuros cidadãos críticos e emancipados capazes de mudar a realidade que os cercam. Acredito que esta disciplina será fundamental para nossa formação, pois nos embasará de teoria e prática para o exercício de nosso ofício, com referência ao que Ferraz e Fusari cita em relação ao ensino-aprendizagem em arte.
Esse segundo período iniciou-se com grande expectava não só por mim, mas creio que por grande parte da turma. A disciplina Prática de Criação Dramática, ministrada pela professora doutoranda Gisele Vasconcelos, iniciou-se pontualmente as 07h30, no Teatro de Bolso Nerine Lobão, no CCH, UFMA. Gisele iniciou falando um pouco sobre o que estudaríamos na disciplina, depois justificou por não ter levado a ementa com o cronograma das atividades, pelo fato de ter sentido a necessidade de fazer alterações no conteúdo, relatando que entregaria na próxima semana.
Os alunos foram chegando aos poucos, grande parte da turma mora distante, fato que dificulta a chegada no horário previsto, o que me preocupa muito, pois a partir de hoje estamos em processo, numa disciplina que pelo que já pude observar, exige do coletivo, do trabalho em grupo. Mas, percebo e reconheço o esforço de cada um, em especial das ex-grávidas, apelido que demos a Stephanie e Clarice, que persistem mesmo com toda dificuldade.
Gisele pediu que ficássemos em círculo, em pé, para iniciarmos o exercício. Iniciou cantando “eu vim de lá, eu vim lá [...]” e pediu que ao seu comando fizéssemos movimentos solicitados, a saber: lento, rápido, devagar, bem miudinho. Seguindo o som da música entoada agora por todos, nos vimos envolvidos pelo exercício e já percebo o quanto essa cadeira será importante para nossa turma, para nos unirmos enquanto grupo.
Depois a professora deu uma folha de papel A4, que foi divida em duas metades, para que escrevêssemos numa parte o nome que gostamos de ser chamados e na outra, uma estrofe de uma música que tivesse um significado importante para nós. Eu escrevi que gosto de ser chamado de Nando, e a letra da música foi “você bem sabe, que eu não lhe prometi um mar de rosas. Nem sempre o sol brilha também há dias em que a chuva cai [...]”, a música chama-se Mar de rosas, dos The Fevers.
A música faz parte da nossa vida, mas tem algumas músicas mais que outras que nos trazem recordações agradáveis, é o caso de Mar de rosas, pois me lembra de minha falecida mãe. Lembro-me dela sempre cantarolando essa música no quintal da minha casa, e a proposta desse exercício me trouxe uma sensação nostálgica.
Foi a partir desse passaporte, como a professora chamou a metade da folha de A4 que nos fora dada, que agora continha um significado importante para nós, que iniciamos nossa viagem por novas propostas de experimentos cênicos. Ao som de uma música popular, jogamos de acordo com as variações propostas pela mestra, onde o objetivo era trocar os passaportes com os colegas, e depois chamar o nome do dono que estava no passaporte que acabávamos de receber.
Após algumas variações desse experimento, em círculo, cantamos a estrofe da música, que estava escrita no verso do papel, como última etapa do jogo, para que o dono se manifestasse e encontrasse seu passaporte através do reconhecimento da canção. Esse momento foi muito descontraído e divertido, pois dava para perceber nos olhos de cada um, lembranças significativas de suas vidas.
Logo em seguida, ainda em circulo mais agora sentados, iniciamos o jogo tradicional “Escravos de Jó”. Existem algumas propostas de se jogar os escravos de Jó, Gisele optou por utilizar sapatos onde cada um passava seu sapato para o outro no decorrer da música. Houveram três variações do jogo, a saber: cantado, somente com lá, lá e mudo, onde o grupo, aos poucos, foi buscando a concentração e a disponibilidade para jogar com o foco nos sapatos e consequentemente na música para realizar sincronizadamente o jogo proposto.
Por fim, ainda com os seus sapatos em mãos, cada um falou por onde seu sapato passou até chegar a UFMA, destaco nessa etapa o discurso de Lígia que me tocou, pela sinceridade e perseverança de vir de tão distante para conquistar seus sonhos aqui em terras ludovicenses.
Pelo fato da professora ter que participar de uma banca de monografia, não pode continuar a aula, passando assim um trabalho em grupo. Tínhamos que desenhar/descrever numa cartolina uma narrativa, contendo; tempo, espaço e personagens. Fizemos até o final do horário, só que em outro espaço, pelo fato do Teatro de Bolso ter sido disponibilizado para outra turma.
A partir daqui, 14 de novembro de 2012, definirei as aulas fazendo jus ao nome que propus para esse protocolo; diário de bordo. Dessa forma, hoje iniciou-se nossa viagem pela prática de criação dramática no segundo horário, logo após a disciplina de Pazzini. Fomos para a Sala de Jogos, onde Gisele comentou que já iria deixar o primeiro texto para a próxima aula na Xerox de teatro, em seguida relatou sobre encenações do norte-americano Bob Wilson.
A importância de ter um professor preocupado com o processo de ensino-aprendizagem do discente é louvável num curso cuja formação almeja futuros teatro-educadores. Fato observado no discurso de Gisele, quando esta comentou que na aula anterior havia citado Bob Wilson, e depois lembrou que nós estamos iniciando o segundo período e que ainda não sabíamos a respeito do encenador citado. Desta forma, contextualizou o assunto e logo após assistimos uma cena do trabalho de Wilson no tablet de Clarice, onde percebemos algumas características explanadas pela professora, a exemplo da perfeição no espetáculo do encenador. O perfeccionismo na produção dele é fato visível na caracterização, na iluminação, bem como nas entradas e saídas dos atores em cena.
Gisele nos falou sobre o jogo dramático e o jogo teatral, ressaltando a importância de cada um. Sobre o jogo dramático e o jogo teatral, de Viola Spolin, Japiassu (2001) diferencia relatando que a abordagem anglo-saxônica do drama destaca exclusivamente os aspectos instrumentais da educação dramática, ao passo que o sistema de jogos teatrais de Viola Spolin, sem prejuízo de sua eventual utilização instrumental, permite sobretudo reivindicar o espaço do teatro como conteúdo relevante em si na formação do educando.
Logo em seguida a professora nos disse que iríamos dar continuidade ao trabalho iniciado na aula anterior. Falou também que uma das intenções da disciplina Prática de Criação Dramática é criar um trabalho/cena a partir de um jogo tradicional.
Partindo do jogo “Escravos de Jó” realizado na aula anterior, iniciamos, hoje, com a divisão da turma em quatro grupos, onde os mesmos teriam que realizar uma cena, tendo como base esse jogo tradicional, só que agora seguindo as regras estabelecidas pela mestra, a saber: a narrativa, o tempo, o movimento e coro.
Após a divisão dos grupos, os mesmos se organizaram para criar as cenas, utilizando o tempo de 25min. estabelecido pela professora. Depois desse processo de criação, iniciamos as apresentações.
O primeiro grupo integrava Ligia, Brenda, Josemar e Necylia, eles deveriam compor a cena, utilizando o tempo a partir da relação com o jogo os escravos de Jó. Apresentaram a cena, primeiro sem música e depois a pedido da professora realizaram mais duas vezes com música.
O segundo grupo, composto por Marcelo, Arisson, Márcia, Clarice e Vinicius realizaram a apresentação utilizando o coro dentro do jogo os Escravos de Jó.
O terceiro apresentou a cena, partindo do movimento para realizar o experimento. O grupo tinha como integrantes Stephanie, Heidy, Tiago, Tiara, e Will.
O quarto e último grupo, composto por mim, Carla, Tieta e Jeane partimos da proposta de, através da narrativa, desenvolver a cena. No início foi bem difícil, pois não vinha nenhuma ideia interessante, foi então que sugeri ao grupo que fossemos lá fora para observar o espaço, e a partir dele realizar a construção da cena.
Lá em baixo, no jardim/praça organizamos a construção dos quadros, seguindo a letra da música. Em cima das mesas, exploramos o primeiro quadro fazendo analogia com o trabalho dos escravos, depois partimos da brincadeira para dar continuidade à cena.
No quadro seguinte foi à brincadeira de “tirar e botar”, proposto na letra da música que nos inspirou para compor a cena, onde corremos saindo de cima de uma mesa para outra.
No terceiro quadro, o ziguezague foi explorado quando ficamos na frente um do outro, tendo o poste como elemento de divisão da cena. Brincamos de fazer ziguezague, finalizando com o movimento de socar. Por fim, corremos como se fossemos crianças brincando de pique-esconde, buscando um lugar para se esconder.
Durante a realização do experimento, o riso surgiu na cena espontaneamente. Viola Spolin (2008) cita que é durante o jogo teatral que as habilidades são desenvolvidas no próprio momento em que a pessoa esta jogando, divertindo-se ao máximo e recebendo toda a estimulação que o jogo tem para oferecer, este é o exato momento em que ela está verdadeiramente aberta para recebê-las. Foi exatamente o que sentimos quando rimos espontaneamente na apresentação.
Depois em círculo finalizamos fazendo as avaliações dos grupos. Em seguida, Gisele propôs que todos repetissem a apresentação de um grupo, o mais simples de preferência. Repetimos a apresentação do primeiro grupo.
Erramos, adaptamos, e repetimos até realizarmos uma cena em grupo, toda a classe. Por fim, refizemos a mesma coreografia, só que agora individualmente. Os alunos iam livremente até o meio da sala e realizavam coreografias utilizando outros elementos criativos.
Eu aproveitei a deixa da narrativa e construí uma cena onde dentro dos movimentos propostos introduzi a narrativa do cotidiano, e ao som do tic-tac eu interpretei o levantar cedo, se vestir, escovar os dentes, arrumar o cabelo e sair apressadamente para encontrar... O trânsito.
Já era quase meio dia, quando nos despedimos, finalizando a aula. Uma aula muito criativa e proveitosa. Um ponto positivo foi ver a turma unida trabalhando em prol do teatro, sem coleguismos.

20 de novembro de 2012, cheguei alguns minutos atrasado na aula de hoje, perdi o Sá Viana (não pego “caospus lotado” porque a aula começa muito cedo e o ônibus 305 não passa no horário que devo pegá-lo), e a professora já estava na sala.
Gisele iniciou a viagem propondo que ficássemos em círculo para iniciarmos a aula com um jogo de aquecimento, cujas instruções eram assim: quando quiséssemos direcionar o foco do jogo em alguém próximo da gente, tínhamos que fazer o gesto de atrito com as duas mãos em direção ao colega/jogador, dizendo a palavra “zip”, quando fizéssemos o mesmo atrito só que agora na direção de um colega/jogador em outra direção que não fosse a próxima da gente, teríamos que dizer “zap” e por fim quando recebêssemos o foco do jogo e quiséssemos devolver teríamos que dizer “boingue”, fazendo o movimento de “onda” com o corpo.
Dadas às instruções iniciamos o jogo, logo no inicio eu e outras pessoas tivemos dificuldades, o que fez com que Gisele diminuísse a quantidade de jogadores para que pudéssemos assimilar o jogo. Experimentamos e fomos jogar com toda a turma, depois de exercitarmos algumas vezes, a professora deu um adendo relatando que a partir desse jogo tradicional poderíamos fazer inúmeras variações e criações dramáticas, propostas que a disciplina possibilita.
Ryngaert (2009) discorre sobre o procedimento da utilização do não-verbal para a construção da cena, citando que assim o jogador é estimulado a abandonar seus estereótipos para ir ao encontro desse universo artístico que ele apreende pelo viés de sua materialidade e por tentativas de transposição que lhe constituem lições de estética.
Depois fizemos outro jogo, pai Francisco entrou na roda e, antes de iniciarmos o jogo, Gisele dividiu a turma pelo espaço. Para que adquiríssemos a malemolência que a personagem do Francisco exigia no jogo, a professora pôs uma música lenta, onde tínhamos que experimentar vários movimentos gesticulando o corpo lentamente, rapidamente e em círculo exercitamos no jogo o que havíamos experimentado sozinhos.
O jogo começa assim: em círculo cantávamos a música “[...] pai Francisco entrou na roda... Vem de lá seu delegado [...]” em seguida entrava um jogador interpretando o pai Francisco, depois entra outro jogador interpretando o delegado. O jogador que estava interpretando o delegado tinha que prender Francisco segundo o enredo da música e o outro jogador, pai Francisco, deveria ficar "malemolengo" e não deixar o delegado lhe prender. 
Infelizmente logo após esse jogo eu, Lígia, Brenda, Tiago, Marcelo e Carla saímos, pois iriamos apresentar o “Negro Cosme” no SESC.
Nossa viagem hoje, 27 de novembro de 2012, iniciou pelas brincadeiras infantis e pelas cantigas de roda com versinhos. Mas antes em círculo, Gisele pediu que começássemos a “pisar” com várias partes dos pés, articulando essa parte do corpo que sustenta todo nosso peso.
Depois ainda em círculo, montamos uma ciranda e cantamos versinhos, como: “[...] eu morava na areia... me mudei para o sertão, sereia... aprendi a namorar, sereia... com um aperto de mão [...]”. Experimentamos criar outros versos partindo da partitura da música que estávamos ouvindo e cantando. Logo em seguida a professora dividiu a sala em quatro grupos de quatro pessoas e disse que agora partiríamos de uma nova brincadeira escolhida pelo grupo, para realizar uma criação dramatúrgica a partir dessa brincadeira tradicional. Onde um seria o organizador e os demais os jogadores como propõe Jean-Pierre Ryngaert (2009).
Gisele deu pouco mais que 1h para realizarmos o procedimento criativo e apresentarmos o exercício para a turma. Passado o tempo proposto, iniciamos as apresentações, com o grupo que tinha como integrantes Tieta, Arisson, Jeany e Vinicius, que improvisaram a cena a partir da brincadeira “pirulito, que bate, bate, pirulito que já bateu [...]”.
O segundo grupo composto por Carla, Clarice, Tiago e Tiara criaram a cena a partir da brincadeira “[...] o anel que tu me deste era vidro e se quebrou, o amor que tu me tinhas era pouco e se acabou”.
Já o terceiro grupo, composto por Brenda, Lígia, Heidy e Necylia montaram uma cena a partir da brincadeira “lagarta pintada quem foi que te pintou, foi à velha cachimbeira por aqui passou [...]”.
Por fim o grupo composto por mim, Marcelo, Márcia e Josemar montamos a criação dramatúrgica partindo da brincadeira de “amarelinha” ou também, popularmente conhecida por “cancão”. Partimos da partitura do jogar a pedrinha nos retângulo/quadrados até chegar ao céu, característica desse jogo, para realizarmos nossa cena.
 Pensamos na escada, como espaço cênico, onde na brincadeira de “subir brincando” utilizamos a mesma estrutura de pisar com um pé no quadrado e pisar com dois pés no retângulo, utilizado na amarelinha, aliado aos movimentos proposto por Laban (lento/pesado, leve e rápido) e assim, construímos a cena.
Em seguida, sentamos em círculo para comentar/relacionar o exercício com o texto de Jean Pierre Ryngaert.

Nossa viagem de hoje, 11 de dezembro de 2012, pelo universo que compõe a prática de criação dramática terá como ponto de partida a narrativa, ou seja, o roteiro da improvisação, que Ryngaert (2009) define assim:
A invenção do roteiro o mais das vezes consiste em estabelecer de modo superficial uma “história” ou um “esquete”, com todas as consequências ligadas a narrativas simplistas, construídas em função de artifícios dramáticos tradicionais. (Ryngaert, 2009, p. 115).
Essa foi à proposta da aula de hoje sugerida pela mestra, ao finalizar a primeira unidade da disciplina. Mas, antes de aprofundar sobre a narrativa no desenrolar do processo criativo, vou me ater ao inicio da aula, nos exercícios de aquecimentos.
Os aquecimentos removem quaisquer distrações exteriores que os jogadores possam trazer consigo. Eles fazem o sangue circular, e unem o grupo ou a turma a superar as diferenças pessoais. (SPOLIN, 1999, p. 17 apud MARTINS, 2004, p. 45).
Após exercitarmos alguns jogos na prática, partimos para a teoria, onde fomos entender um pouco mais sobre a estrutura do sistema de jogos teatrais de Viola Spolin.
 Em círculo Gisele propôs que todos tirassem uma fichinha do livro O fichário de Viola Spolin, que contém a seguinte estrutura: o nome do jogo, a preparação (se esse jogo requer uma preparação especifica antes, um “aquecimento”, jogo introdutório, ou é continuidade de outro jogo), foco (o ponto de concentração que o jogador deverá ter no jogo), descrição (como o jogo deverá se desenvolver), instruções (instrução dada pelo encenador/professor durante a realização do jogo, forma de guiar a concentração do jogador no foco), avaliação (opcional, nem todo jogo requer avaliação, por isso ficará a critério do professor), notas (opcional, somente quando necessário igual à nota de rodapé).
Esse sistema de jogos teatrais foi criado no contexto da vanguarda teatral americana, a partir do final da década de 1950 pela encenadora e educadora Viola Spolin. Desde então serve como recurso metodológico para diretores amadores e/ou profissionais e professores no ensino de teatro com crianças, adolescentes e adultos dentro e fora das instituições oficiais. (MARTINS, 2004, p. 49).
Dessa forma, o jogo teatral de Spolin trata-se de uma improvisação de caráter lúdico que enfatiza não um tema, a comunicação de uma mensagem ou a ilustração de um texto, mas sim os elementos que constituem a própria linguagem teatral. Pois a princípios visava resolver problemas de encenação de textos dramáticos. Possui como ponto de partida o papel ou personagem (Quem), a ação (Quê) e o espaço (Onde) e têm como objeto o Foco. (MARTINS, 2004, p. 49).
Logo em seguida Gisele dividiu a turma em quatro grupos, entregou aleatoriamente as cartolinas que continham histórias, histórias essas criadas em grupo no primeiro dia de aula. Foi a partir dessas narrativas que desenvolvemos a primeira atividade proposta por ela.
Gisele propôs que os grupos identificassem nas suas histórias o lugar, a situação e a personagem. O meu grupo além de mim, tinha Carla, Tieta e Clarice. Nossa história era de um homem solitário e despido, que num apartamento revivia seu momento nostálgico lembrando-se de seus amores e bêbedo uísque barato.
Sobre o uso de roteiro no processo criativo Jean-Pierre Ryngaert (2009) comenta que o uso de roteiro depende dos objetivos do professor, e que geralmente o uso desse recurso metodológico visa o treinamento do domínio da criação pelos alunos, de um ponto de partida para aflorar a criação artística, o que felizmente ou infelizmente já satisfaz o professor de imediato.
Partimos do enredo dessas histórias, ou seja, partimos da narrativa que cada grupo havia ficado para criar ações/cenas que já havíamos definido, partindo do “se”. O “se” proposto anteriormente por Gisele, é o que sugere Stanislaviski que a partir desse “se” imaginemos outros possíveis desfechos para a história.
Partindo da narrativa do “se”, foram solicitados três movimentos que fizesse analogia a situação do desfecho do enredo. No meu caso, acabei extrapolando os três movimentos e as ações ficaram assim: caindo no chão, lendo cartas, joga-as no chão, em pé atendendo um telefone, andando em direção a janela, abrindo-a, olhando pela janela o lado de fora e se jogando.
A turma e a professora não sabiam exatamente dessa história que inventei para essas cenas, mas percebi depois que não era o objetivo do jogo todos saberem do que havia criado. Ficou claro depois quando fui solicitado em continuar na cena e todos me observassem, onde executei minha partitura de ações/cenas, e em seguida o Arison entrou no jogo para a partir das minhas ações criar uma narrativa.
Aos poucos todos foram jogando, de acordo com outras variações da narrativa. No final da aula Gisele pediu que no próximo encontro todos levassem seus protocolos, pois os mesmo serão utilizados como parte da avaliação da primeira unidade da disciplina.
Finalizo essa viagem citando dois textos bem interessantes sugeridos como leituras pela professora, o primeiro é o da Anne Ubersfeld, Para ler teatro, que trata da semiologia no texto e na representação cujo tema me interessa bastante e quero explorar mais.
 Já o outro livro é do Bulhões, Encenação em jogo, que fiquei apaixonado e já quero ler todo, porque é encantador! Sobre o encenador, Martins (2004, p. 42) cita que cabe “ao coordenador descartar as soluções fáceis e desvendar crises que promovam novas descobertas, sem receio de reconhecer que nem sempre conhece a solução dos problemas que surgem”. Dessa forma, o “encenador deve utilizar os mais variados estímulos, provocando a multiplicidade de pontos de vistas, estimulando novas experiências e a atitude de pesquisa dos participantes”.

Referências
FERRAZ, Maria Heloísa Corrêa de Toledo; FUSARI, Maria F. de Rezende e.  Metodologia do ensino de arte. São Paulo: Cortez, 1999. – 2ª ed.

JAPIASSU, Ricardo Ottoni Vaz. Metodologia do ensino do teatro. 3ª ed. Campinas. Ed. Papirus, 2001.

RYNGAERT, Jean-Pierre. Jogar, representar: prática dramática e formação. Ed. São Paulo, 2009.
SPOLIN, Viola. Improvisação para o teatro. 5ª ed. São Paulo. Ed. Perspectiva, 2008.

SOUTH, Joe. (versão: Rosssini Pinto). Mar de Rosas. Disponivel em < http://letras.mus.br/the-fevers/119995/ >. Acesso em 13 de novembro de 2012.

MARTINS, Marcos Bulhões. Encenação em jogo: experimento de aprendizagem e criação do teatro. Ed. São Paulo, 2004.

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