por Carla Purcina
[...] o termo brincadeira refere-se, basicamente, à ação de brincar, ao comportamento espontâneo que resulta de uma atividade não estruturada. O termo jogo refere-se a uma brincadeira que envolve regras. (FRIEDMANN, 1996, p.12)
No início das atividades da disciplina de Prática de Criação
Dramática, ministrada pela Prof. Msc. Gisele Vasconcelos[1],
trabalhamos jogos teatrais a partir de brincadeiras populares, sendo mais
sucinto: as cantigas de roda. Como bem define Friedmann[2]
há uma diferença entre os termos brincadeira e jogo, onde este é complemento
daquele de alguma maneira. Quando dizemos que vamos brincar, automaticamente
vem- se na cabeça a ideia de se extravasar numa forma bem espontânea. Já
quando falamos em jogar - um jogo de tabuleiro, uma partida de futebol, ou até mesmo
um joguinho de vídeo game - em imediato se pensa na determinação de regras e
instruções para realiza- lo. Havendo a espontaneidade em ambos os termos,
podemos então fazer uma ligação produtiva.
Na sala de aula fundamentamos nossas criações a partir da
cantiga de roda “Escravos de Jó” em que, dividido em grupos, descontruímos esse
paradigma utilizando de sua sonoridade, sua história, seus movimentos e seu
tempo. A partir das nossas criações, a professora propôs a complementação de
cada uma, começando com o grupo que trabalhou em cima do tempo da cantiga. Esta
criação foi aperfeiçoada tanto coletivamente como posteriormente, desses mesmos
aspectos cênicos, a construção individual, que fomentou- se com a introdução de
rugidos e gramelôs. Trabalhando sucessivamente com todas as outras criações,
podemos notar como um simples fragmento pode se submeter à releitura de vários
olhares, sendo modificados e complementados por eles, fazendo com que o sentido
inicial se refaça à medida que se é subordinado a variações, criando uma cena
oriunda de várias codificações, como bem conclui Ryngaert[3],
“O interessante das linguagens artísticas provém do fato de que, diante delas,
ninguém é obrigado a compreender exatamente a mesma coisa, nem de reagir do
mesmo modo”(RYANGAERT, 2009, 213-214).
Além deste meio de construção cênica - a partir dos elementos
desconstruídos e complementados de uma cantiga já pré- determinada, foi
proposto em sala de aula, também dividido em grupos, que cada um deste escolhesse
um ou mais jogos tradicionais e transformasse - os em uma criação cênica. O meu
grupo escolheu dois jogos: Ciranda Cirandinha e Estátua. Ainda com relação à proposta
de criação passada, teríamos que buscar desses jogos algum de seus aspectos –
tempo, sonoridade, história ou movimentos. Buscamos, além da sonoridade, tempo
e movimentos da Ciranda Cirandinha e do movimento da Estátua, uma interação de
sentido da história oposta ao que se diz no texto Ciranda Cirandinha, onde a
figura masculina relatou o proposto da história da cantiga, mas a figura
feminina contrapôs de modo superior. Nossa criação conteve um começo, meio e
fim bem claro, numa exposta brincadeira infantil real, ou seja, como se houvessem
crianças brincando, porém com uma intervenção de duas figuras de caráter
adulto.
É notório em nossas aulas como a cantiga de roda, o jogo
tradicional, a brincadeira de roda ou brincadeira popular esteve presente e nos
estimulou a criações de vários parâmetros e com vasta complexidade de sentidos.
Um meio que querendo ou não está ou já esteve presente em nossas vidas. A infância
é completamente aguçada por essas brincadeiras. Isso faz com que nossa
experiência interfira diretamente em nossas criações, tanto no sentido claro da
brincadeira, como em sua desconstrução significativa. A nossa pré-expressividade oriunda de nossas experiências sensoriais e práticas tem total ligação com a
forma e o modo como interferimos na criação, na improvisação, no jogo.
Ryngaert faz uma comparação da representação tradicional e
das práticas de improvisação:
Enquanto a representação tradicional privilegia a construção do referente e não considera, senão parcialmente, a situação real cujas resistências eventuais devem ceder diante da força do que foi previsto e ensaiado, as práticas de improvisação absorvem como uma esponja a realidade imediata e constroem um referente a partir da experiência instantânea dos jogadores e de sua percepção. (RYNGAERT, 2009, 198-199)
E o que o jogo teatral nos permite, a improvisação e a espontaneidade
faz com que haja uma preparação e uma vivência da prática teatral. Este método
desenvolvido por Viola Spolin [4] foi
um grandioso referencial para nossas práticas e fundamentações. Viola Spolin utilizava sua metodologia fundada nos questionamentos
“Onde? Quem? O que?”, presumi que aprendemos pela experiência e pela
experimentação e que todos podem fazer teatro, basta querer. São vários os
jogos criados por ela, lemos alguns em sala de aula. A estruturação de seus
jogos se dá primeiramente pelo foco e a preparação necessária. Logo se dá a
descrição e a instrução que deve ser seguida. Ela propõe no final de cada jogo
que haja uma avaliação para se concretizar se foi realizado com sucesso e quais
as sensações e situações que este jogo proporcionou.
Igor Nacimento[5] em seu blog diz: "No jogo teatral fingir é o pior caminho. Significa falsidade. Fingir, na verdade, pretende apenas formular uma imagem falsa daquilo que realmente sentimos." Com isso concluo que o jogo teatral é aquilo que nos permite transpassar o nosso eu, aquilo de mais guardado que existe dentro de nós, a espontaneidade e a improvisação são meros meios de nos demonstrarmos sem que haja algum receio ou inquietação que não possa ser transmitida ao outro.
[1]
Doutoranda em Artes Cênicas, ECA – USP/ Prof. Msc. do Departamento de Artes da
UFMA/ Pesquisadora do Grupo Pedagogias do Teatro e Ação Cultural – Cnpq/ Atriz
e contadora de histórias do Grupo Xama Teatro.
[2]Prof.
Dra. Em Antropologia/ Educadora especialista na área da infância/ Consultora e
Escritora/ Pesquisadora da Unicamp e membro do Labrimp da Feusp.
[3]
Professor de estudos teatrais da Universidade de Paris III / Especialista na
área de teatro- educação / Encenador e diretor teatral.
[4] Autora
e diretora de teatro norte- americana.
[5]Graduado
em Letras – Hab. Francês pela Universidade Federal do Maranhão / Dramaturgo e
escritor maranhense.
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REFERÊNCIAS
RYANGAERT, Jean-Pierre. Jogar, representar: Práticas dramáticas e formação. São Paulo. Ed: Cosac Naify, 2009.
SPOLIN, Viola. Improvisação para o teatro. 5 ed. São Paulo. Ed: Perspectiva, 2008.
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REFERÊNCIAS
BERCOVITCH, Michel. Pré-expressividade. Disponível em: Acesso em: 16 de dezembro de 2012.
FRIEDMANN, Adriana. Brincar: crescer e aprender: o resgate
do jogo infantil. São Paulo. Ed: Moderna, 1996.
NASCIMENTO, Igor. Um certo pessoa que banalizou o sentimento. Disponível em: Acesso em: 14 de dezembro de 2012.
RYANGAERT, Jean-Pierre. Jogar, representar: Práticas dramáticas e formação. São Paulo. Ed: Cosac Naify, 2009.
SPOLIN, Viola. Improvisação para o teatro. 5 ed. São Paulo. Ed: Perspectiva, 2008.
Amei o blog! Cadê o link para seguir vcs seus lindos?
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